Há pouco mais de duas décadas mantive um debate (democrático) com o então presidente da Agência de Meio Ambiente da Capital (Amatur), Marcelo Lélis. A prefeita recém-eleita era a ex-secretária de Educação do Estado (e depois deputada federal), professora Nilmar Ruiz.
O núcleo do debate era a proposta de Lélis, àquela época, de sequestrar carbono com as áreas verdes da cidade e transformar isto em ativo público. Eu era colunista (Antena Ligada) e editor-executivo do JTo.
Pontuei artigos provocando discussão sobre a validade e oportunidade do projeto numa Capital que, achava eu, tinha outras prioridades. Lélis foi à redação mostrar-me, com filmetes, números e projeções, a validade do projeto. Ele acreditava naquilo. Eu, como todo jornalista, tinha minhas convicções e, especialmente, dúvidas.
Ainda que tivesse conhecimento da importância do assunto no Estado que integras dois biomas: Cerrado e Amazônia e com quase duas dezenas de APAs e Parques Ambientais que demonstram a preocupação do governador Siqueira Campos que as criou quando meio ambiente ainda não era a pauta do dia da agenda política e econômica.
A preocupação ambiental na cidade já vinha desde a criação da Gaia (uma Ong ambiental) pelos primeiros moradores (maioria servidores públicos e jornalistas) de Palmas. Uma ong criada ainda na Capital provisória, Miracema. E mais tarde, uma empresa privada: a Ecológica. Fizeram, vê-se hoje, um trabalho formidável.
Convidado pelo ecologista Divaldo Rezente (então presidente da Ecológica), estive, com o repórter fotográfico Roberto Carlos, num destes projetos da Ecológica no seu início: o Centro de Pesquisa Canguçu, ali nas margens do rio Javaés. O primeiro projeto de sequestro de carbono do país. Era 1.999. Ele foi inaugurado pelo então ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho e foi visitado pelo hoje Rei Charles III. Estive lá como jornalista nas duas ocasiões.
E por que faço essas reminiscências e digressões: Marcelo Lélis hoje é secretário estadual do Meio Ambiente e desenvolve (com a parceria de outras secretarias envolvidas) projeto de sequestro de carbono que pode proporcionar ao Estado recursos superiores a R$ 1.9 bilhão. Cerca de 15% de todo orçamento anual do governo. Ou ainda: 4,7% do PIB do Estado. Apenas com comercialização de carbono sequestrado.
Um projeto que já sai das pranchetas com o contrato assinado recentemente com a Mercuria Energy Trading S/A, na missão do Governo na Europa dias atrás. Um projeto que já é lei desde 2008. A empresa firmou contrato de compra antecipada do carbono e adiantou R$ 40 milhões para os estudos necessários à validação e certificação.
Só para se ter uma idéia: a Mercuria tem um faturamento de US$ 175 bilhões (R$ 841 bilhões na cotação deste sábado). O Tocantins tem um PIB de R$ 40 bilhões. A empresa vale 21 PIBs do Estado.
De 2016 a 2020, os créditos de carbono registrados pelo Estado para certificação e validação somam algo próximo de 65 milhões de toneladas que valem, no mercado internacional, o equivalente a 10 dólares a tonelada.
“Podemos ter, numa margem segura, 40 milhões de toneladas prontas para comercializar”, disse ontem ao blog o secretário Marcelo Léiis, de Cuiabá (MT) onde participava do Fórum de Governadores. Ressaltando a sensibilidade do governador Wanderlei Barbosa para o tema.
De acordo com Marcelo Lélis, o Estado do Tocantins é o primeiro ente subnacional do planeta a firmar convênio transnacional semelhante. Antes, o expediente havia sido realizado apenas pelos governos (entes nacionais) da Guiana e de Costa Rica. “O Estado já é pauta internacional”, avaliou o Secretário.
O projeto, agora, passará por audiências públicas para se discutir as prioridades onde o governo irá aplicar aquele R$ 1,9 bilhão que serão auferidos com a comercialização dos créditos de carbono. Os recursos serão depositados no Fundo Clima estadual,criado por lei justamente para recepcionar os recursos. “´E bom para o Estado e para a população”.
Já me penitenciei junto a Marcelo Lélis: ele e a Ecológica/Gaia estavam indiscutivelmente certos e adiante. Talvez tivesse o projeto sido implementado, na prática, no início dos anos 2000, o Estado já teria ganho mais.
Marcelo desviou-se um pouco do foco (ainda que tenha se mantido na atividade de defesa do meio ambiente), foi vereador, deputado, canditado a prefeito e agora retoma o eixo inicial e principal. Melhor para o Estado.


