Dias atrás, um político me dizia do seu projeto: adquirir um apartamento na Capital em que pudesse levar seu veículo de elevador até a garagem no andar de seu próprio apartamento. Já estava próximo de fazê-lo não pela insuficiência de recursos. Um político que conheci circulando de bicicleta por não ter dinheiro para adquirir um veículo de quatro rodas. Um meritocrata.
Era empolgado com Palmas e o Tocantins, vendo-os como projetos exitosos de desenvolvimento. Olhava a maravilhosa visão do lago, os barcos luxuosos a singrar as águas, os ricos edifícios e condomínios de alta renda fechados e suspirava: tudo isto feito por um grande líder. Um Estado que conquistou com muita luta sua autonomia.
É claro que deixava de lado o manjar dos presumíveis meio trilhão de reais orçamentários retirados do bolso da população em três décadas que irrigou as contas dos líderes formando uma casta de milionários no Estado sem qualquer atividade produtiva conhecida, estabelecendo quase que um método político de desempenhar função pública.
E não estabelecia conexão entre sua performance rentista política e os 55% da população que, conforme estudo do Banco Mundial, situam-se na pobreza e extrema, pobreza no Tocantins. Um exército de 860 mil dos 1,572 milhão de habitantes. Num Estado de PIB per capita de R$ 20 mil, produto da divisão do PIB (todas as riquezas) pela população. Uma falácia utilizada para manter-se o status quo determinante na escandalosa concentração de renda.
Não se importava com o fato da Capital ter uma renda média per capita de R$ 1.306,00, um PIB per capita de R$ 28 974,17, produto da divisão da riqueza de R$ 8,1 bilhões pelos seus 300 mil habitantes. E conviver com um índice de pobreza de 39,52% . Uma legião de 120 mil pessoas. Um terço da cidade na pobreza.
O Estado fez 31 anos. A região mudou, não restam dúvidas. Deslocou o eixo econômico do Sul para o Norte, quebrou a diferença de quase 24 horas entre o Bico do Papagaio e o então centro administrativo e político quando ainda pertencente a Goiás.
Politicamente a população do Estado (em larga maioria) ainda é refém do populismo e do coronelismo combatido pelas lideranças históricas nortenses e que as fizeram erguer trincheiras por décadas por sua autonomia.
Uma política centrada na familiocracia e que não recebe oposição das novas lideranças carentes de princípios e preenchidas de projetos fisiológicos, não raro, substituindo a parte individual pelo todo. Novas lideranças, práxis maléfica tão quanto retrógrada e reacionária.
Um Estado que convive com pouco mais de cem mil sub-trabalhadores com renda média mensal de R$ 70,00, o equivalente a pouco mais de R$ 2 por dia contra o mínimo necessário da extrema pobreza de US$ 3 dólares (R$ 12,00/dia) e com mais de 600 mil sem rendimentos, de acordo com o IBGE.
Uma renda abaixo da pobreza, na miséria absoluta já que são considerados miseráveis aqueles que ganham menos de um quarto do salário mínimo por mês, hoje o equivalente a R$ 249,00. O Banco Mundial, por exemplo, utiliza a faixa de US$ 1 dólar por dia por pessoa como linha de indigência e de US$ 2 dólares por dia por pessoa como linha de pobreza.
Mesmo IBGE que lhes aponta um total de R$ 31 bilhões de riquezas e, paradoxalmente, outros 600 mil dependentes do Bolsa Família, programa social do governo federal. Em que o agronegócio que exporta US$ 1,2 bilhão de dólares (R$ 4,8 bilhões), considerada sua matriz econômica produtiva e potencial, com benefícios fiscais extraordinários, empurra para um paralelo marginal dezenas de milhares de sem-terra e sem-comida, com seus latifúndios e lavoura mecanizada.
Não é, necessariamente, algo a se comemorar com tanta profusão, pela população. A maior parte do bolo ficou e continua ficando com a sociedade política. Para o que lutaram por uma vida melhor durante tanto tempo, o Estado ainda seria um projeto em sonho muito distante da liberdade econômica e autonomia financeira da maioria de sua população ainda sem esperanças.


