Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Empresário do Hospital de Amor critica governo alegando falta de compromisso. Uma relação "sui gêneres" que apontei aqui há três anos!!! Governo não pode deixar pacientes nas mãos só de entidades privadas

luizarmandocosta 02/06/2020 615 visualizações

O governo anunciou ontem que zerou a fila de cirurgia oncológicas em urologia e ginecologia no Hospital Geral de Palmas. Não há por que duvidar, levando-se em consideração que filas de cirurgia e nos corredores dos hospitais públicos são difíceis de escamotear. Aliás, deve se reconhecer, a crise nos hospitais foi arrefecida, situação menos lembrada com igual intensidade que o descalabro incontrolável que tomava espaço nos veículos de comunicação, reflexo das críticas da sociedade, de anos anteriores.

Intuo que a Saúde o tenha publicitado ontem em função de críticas públicas feitas pelo empresário Henrique Prata (do Hospital do Amor/Hospital de Barretos) contra decisão governamental de cumprir portaria do Ministério da Saúde que o obriga a expandir os serviços de oncologia na rede pública.

O dirigente baixou o nível chamando o Secretário de Saúde de traidor e irresponsável e aí perdeu a razão. Ainda que o governo estivesse atrasado com o repasse de verbas de emendas, a Saúde no Estado não é somente Hospital de Amor, uma entidade privada. E, pelo que o próprio dirigente expõe, na outra crítica, o governo estaria cumprindo determinação do Ministério da Saúde. E há ainda competências e prerrogativas discricionárias do poder público que não se pode negar sob qualquer justificativa.

O Hospital de Amor é, também não se discute, um empreendimento relevante para o Estado. E, quando em funcionamento na Capital, vai atender a demanda hospitalar de cânceres na região Norte do país. Ainda que da iniciativa privada como outros hospitais particulares. Tem-se aí uma questão de mercado que na saúde é altamente lucrativo. O governo banca os pacientes do Estado no Hospital de Barretos (que em Palmas será Hospital do Amor), do mesmo grupo. Recursos do SUS e de emendas parlamentares. O expediente é possível (e necessário) porque há dificuldades (demanda maior que oferta) para o governo tratar todos os pacientes de câncer no Estado. Uma terceirização.

Agora, o governo do Estado não pode (até por lei) deixar a população à mercê do Hospital do Amor (uma entidade privada) nos casos de tratamento de cânceres. Ele, o governo, lá no HGP, tem sua estrutura com equipamentos e profissionais dedicados. Só não é melhor o atendimento porque, não raro, faltam medicamentos para as pessoas que ali tratam. A maioria de baixíssima renda e do interior do Estado. E lá para o Hospital de Barretos enfrenta uma fila impulsionada frequentemente por ações políticas. O cidadão é, às vezes, levado a pedir ajudinha de parlamentares ou políticos influentes para ter uma vaga na fila.

Quando minha filha teve parte do tratamento de uma leucemia acompanhada por oncologistas e hematologistas do HGP, tinha semana que faltava, por exemplo, bactrin (fundamental no combate de infecções, um comprimido de menos de R$ 10 a caixinha) ou mesmo metotrexato. Este ano já morreram de câncer no Tocantins 310 pessoas. Como a Saúde registra 2.226 mortes no Estado de janeiro a maio, os cânceres são responsáveis por 14% dos óbitos. No ano passado foram 1.149 óbitos e 1.111 em 2018 que revelam grandezas não só sociais, mas econômicas.

No dia 6 de março de 2017, publiquei este artigo no blog. Os governistas (governo do MDB) e muita gente bacana aí, aliada dos empresários do Hospital de Barretos/Hospital do Amor, chiaram. Mas não podiam refutar a verdade que colocava. E que hoje é revelada pelos próprios empresários:

Canibalizando recursos de câncer e sucateando o HGP: Hospital que já tratava mal pacientes poderá ter sua grana desviada para fundação

Meu Deus!!!! Pacientes estão indo a óbito no Hospital Geral de Palmas por falta de remédios, pessoas que se tratam de câncer estavam há uma semana com tratamento suspenso  (faltavam medicamentos, UTIs)  e hoje se sabe a disposição do governo do Estado de mandar para o Hospital de Câncer de Barretos (Unidade Palmas que ainda está no papel) os recursos que seriam destinados aos pacientes de câncer do HGP? Papo-reto: descobre um santo para cobrir o outro, mandando a grana para a pia fundação ainda por aqui na meta-física. Um empreendimento que ainda está no papel e cuja obra está estimada em R$ 60 milhões.Até o terreno foi doado pelo governo.  Um empreendimento privado (é uma fundação Pio XII). E o pior é que os empresários batem o pé: sem isto, nada daquilo!!! E o governo decidiu ceder!!!! Vai convencer o Ministério da Saúde a mandar a grana do hospital público direto para o hospital particular. Ou seja, uma obra particular (ainda que sua maior fonte de renda sejam doações e os recursos do SUS) de R$ 60 milhões e que, antes de sair do papel, já quer garantir os recursos do HGP!!!! Que já não os tem o suficiente. Nos dois primeiros meses do ano (até 5 de março) o governo federal  já havia repassado ao Estado para Média e Alta Complexidade (onde se encaixa o tratamento de câncer) um total de R$ R$ 67.293.214,06. Isto mesmo, 67 milhões de reais. O que projetaria R$ 402 milhões no ano. É ou não é a terceirização da grana do câncer com o sucateamento do HGP?

O texto de três anos atrás, como se nota, continua atual, real e valendo.

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