O governo anunciou ontem que zerou a fila de cirurgia oncológicas em urologia e ginecologia no Hospital Geral de Palmas. Não há por que duvidar, levando-se em consideração que filas de cirurgia e nos corredores dos hospitais públicos são difíceis de escamotear. Aliás, deve se reconhecer, a crise nos hospitais foi arrefecida, situação menos lembrada com igual intensidade que o descalabro incontrolável que tomava espaço nos veículos de comunicação, reflexo das críticas da sociedade, de anos anteriores.
Intuo que a Saúde o tenha publicitado ontem em função de críticas públicas feitas pelo empresário Henrique Prata (do Hospital do Amor/Hospital de Barretos) contra decisão governamental de cumprir portaria do Ministério da Saúde que o obriga a expandir os serviços de oncologia na rede pública.
O dirigente baixou o nível chamando o Secretário de Saúde de traidor e irresponsável e aí perdeu a razão. Ainda que o governo estivesse atrasado com o repasse de verbas de emendas, a Saúde no Estado não é somente Hospital de Amor, uma entidade privada. E, pelo que o próprio dirigente expõe, na outra crítica, o governo estaria cumprindo determinação do Ministério da Saúde. E há ainda competências e prerrogativas discricionárias do poder público que não se pode negar sob qualquer justificativa.
O Hospital de Amor é, também não se discute, um empreendimento relevante para o Estado. E, quando em funcionamento na Capital, vai atender a demanda hospitalar de cânceres na região Norte do país. Ainda que da iniciativa privada como outros hospitais particulares. Tem-se aí uma questão de mercado que na saúde é altamente lucrativo. O governo banca os pacientes do Estado no Hospital de Barretos (que em Palmas será Hospital do Amor), do mesmo grupo. Recursos do SUS e de emendas parlamentares. O expediente é possível (e necessário) porque há dificuldades (demanda maior que oferta) para o governo tratar todos os pacientes de câncer no Estado. Uma terceirização.
Agora, o governo do Estado não pode (até por lei) deixar a população à mercê do Hospital do Amor (uma entidade privada) nos casos de tratamento de cânceres. Ele, o governo, lá no HGP, tem sua estrutura com equipamentos e profissionais dedicados. Só não é melhor o atendimento porque, não raro, faltam medicamentos para as pessoas que ali tratam. A maioria de baixíssima renda e do interior do Estado. E lá para o Hospital de Barretos enfrenta uma fila impulsionada frequentemente por ações políticas. O cidadão é, às vezes, levado a pedir ajudinha de parlamentares ou políticos influentes para ter uma vaga na fila.
Quando minha filha teve parte do tratamento de uma leucemia acompanhada por oncologistas e hematologistas do HGP, tinha semana que faltava, por exemplo, bactrin (fundamental no combate de infecções, um comprimido de menos de R$ 10 a caixinha) ou mesmo metotrexato. Este ano já morreram de câncer no Tocantins 310 pessoas. Como a Saúde registra 2.226 mortes no Estado de janeiro a maio, os cânceres são responsáveis por 14% dos óbitos. No ano passado foram 1.149 óbitos e 1.111 em 2018 que revelam grandezas não só sociais, mas econômicas.
No dia 6 de março de 2017, publiquei este artigo no blog. Os governistas (governo do MDB) e muita gente bacana aí, aliada dos empresários do Hospital de Barretos/Hospital do Amor, chiaram. Mas não podiam refutar a verdade que colocava. E que hoje é revelada pelos próprios empresários:
Canibalizando recursos de câncer e sucateando o HGP: Hospital que já tratava mal pacientes poderá ter sua grana desviada para fundação
Meu Deus!!!! Pacientes estão indo a óbito no Hospital Geral de Palmas por falta de remédios, pessoas que se tratam de câncer estavam há uma semana com tratamento suspenso (faltavam medicamentos, UTIs) e hoje se sabe a disposição do governo do Estado de mandar para o Hospital de Câncer de Barretos (Unidade Palmas que ainda está no papel) os recursos que seriam destinados aos pacientes de câncer do HGP? Papo-reto: descobre um santo para cobrir o outro, mandando a grana para a pia fundação ainda por aqui na meta-física. Um empreendimento que ainda está no papel e cuja obra está estimada em R$ 60 milhões.Até o terreno foi doado pelo governo. Um empreendimento privado (é uma fundação Pio XII). E o pior é que os empresários batem o pé: sem isto, nada daquilo!!! E o governo decidiu ceder!!!! Vai convencer o Ministério da Saúde a mandar a grana do hospital público direto para o hospital particular. Ou seja, uma obra particular (ainda que sua maior fonte de renda sejam doações e os recursos do SUS) de R$ 60 milhões e que, antes de sair do papel, já quer garantir os recursos do HGP!!!! Que já não os tem o suficiente. Nos dois primeiros meses do ano (até 5 de março) o governo federal já havia repassado ao Estado para Média e Alta Complexidade (onde se encaixa o tratamento de câncer) um total de R$ R$ 67.293.214,06. Isto mesmo, 67 milhões de reais. O que projetaria R$ 402 milhões no ano. É ou não é a terceirização da grana do câncer com o sucateamento do HGP?O texto de três anos atrás, como se nota, continua atual, real e valendo.


