É obviamente uma indecência a base governista no Congresso propor uma Emenda Constitucional estabelecendo, agora, o cargo de senador vitalício a ex-presidentes da República.
A exposição de que o senador Eduardo Gomes (PL-TO) seria o responsável pela sua propositura, sinaliza, por lógica, o grau de comprometimento de Gomes com Jair Bolsonaro, de cujo governo é líder no Congresso.
Articulador reconhecido e inteligente, Eduardo Gomes tem, por certo, ciência do pântano em que coloca pés e mãos. Mas parece não medir, por hora, para sua carreira política bem sucedida até aqui, causas e consequências da PEC
É como se um político com nível de seleção, como Eduardo indiscutivelmente é, decidisse, após uma derrota e por instinto de preservação, instruir seu time como técnico de varzea numa decisão: perdido por um, perdido por dez. Deixando de lado a retaguarda e a vanguarda mais adiante, dependente que é de suas escolhas.
Uma emenda constitucional indiscutivelmente casuística e personalisticamente elaborada para livrar Jair Bolsonaro dos crimes comuns que teria cometido no quadriênio, dada a imunidade, pela PEC, vitalícia, condizente ao cargo de senador ad eternum.
Uma PEC discutível do ponto de vista constitucional, inoportuna nas atuais circunstâncias e de finalidades moralmente indefensáveis.
Pode ser puro cálculo político: convergência do bolsonarismo no Estado à sua liderança e fidelidade a Jair. O problema é que tem o lado institucional da coisa, o país, por maioria, rejeitou o modelo arbitrário de Jair Bolsonaro. A Constituição e os poderes reagiram aos ataques e sairam ilesos de Bolsonaro. A democracia venceu.
Do ponto de vista regional, tem também seu custo. Convergindo os eleitores de Bolsonaro, Gomes estabelece conflito de liderança política com o governador Wanderlei Barbosa, forçando-o a deixar o Republicados e a base de Jair. E com ele, levar parte da bancada congressista.
A argumentação de que também FHC, Lula, José Sarney ou Michel Temer dela pudessem ser beneficiários, ademais, é falaciosa e afronta a capacidade cognitiva da nação. Assim como a argumentação de que o cargo de senador vitalício pacificaria o país, conflagrado justamente por Jair Bolsonaro.
Um presidente (que agora quer ser senador vitalício em prol de uma pseudo pacificação do Brasil) que promoveu arruaças pelo país por quatro anos, contribuiu decisivamente com omissão de vacinas para quase 700 mil óbitos pelo Covid e ameaçou rotineiramente a ruptura do regime democrático do país. Os bloqueios de ruas e manifestações nos quartéis nesta terça não deixam margem de dúvidas.
Além do mais, aceitaria, por sua causa, Jair Bolsonaro, ter ao lado no Senado um senador vitalício “ladrão” como denomina Lula?
Na lógica e na física, dois erros não fazem um acerto.


