Muitos tem confrontado o blog nos últimos dias por sua posição acerca das homenagens a Siqueira Campos e à sua própria participação na história de criação do Estado. Homenagens merecidas mas que não refutam, em desfavor da história, o debate sobre réguas e medidas.
Cada um tem direito às suas escolhas. Os bolsonaristas, por exemplo, acreditavam (alguns ainda o defendem) no absurdo de Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho, de que a terra era plana (e não geóica.achatada ou esférica, no popular, redonda) e que a vacina contra covid-19 matava e não salvava.
Pois bem: no início da implantação do Estado, o escritor e desembargador Liberato Costa Póvoa (que era siqueirista mas defendia como ninguém a história verdadeira de criação do Estado, um intelectual e desembargador de que tive a honra de ser amigo e ter como fonte jornalísitca quase que diária) ganhou o concurso do Hino do Tocantins. Escrevi reportagens sobre isto.
Siqueira vetou parte do texto e encomendou novo hino. Liberato dizia que a recusa teria sido por causa disso na letra de seu hino: “Do bravo ouvidor/a saga não parou/contra a oligarquia/o povo se voltou”.
Na época, quando estourou a disputa (com ameaças até de procesos na Justiça) eu fazia parte do Conselho Estadual de Cultura junto com o poeta Zé Gomes, José Cardeal, Cicero Belém, Otávio Barros, o próprio Liberato..... O Conselho se reunia, antes na Educação e depois,.já no governo Moisés Avelino, ali num prédiozinho na esquina da Avenida Teotonio com a LO-11, ao lado do que seria, após, o prédio da ATM.
Isto aí (a parte do hino rejeitada) era, na verdade, o norte magnético e filosófico da luta de emancipação, como acreditava Liberato: um libelo contra as oligarquias, especialmente as goianas, que botavam canga na miséria nortense (ele próprio de Dianópolis). E mais um muro de contenção do que de lamentação contra as que pudessem vir depois do Estado criado.
E que seria confrontado, ato contínuo, com a narrativa siqueirista aceita e disseminada amplamente (sem crítica pública dos historiadores) de autoria de criação única do Estado que a levaria a uma propriedade particular, exclusiva e não inclusiva, certificada pela negação de Siqueira ao texto de Liberato. E à própria história real.
História real referendada até mesmo por Ulysses Guimarães (então presidente da Câmara) no ato de recebimento das 72 mil assinaturas quando, como uma premonição, discursou que o abaixo assinado significava que o Estado não era obra de apenas um político. Discurso registrado nos anais da Câmara dos Deputados.
Uma narrativa pública!! Em 26 de setembro de 2020, por exemplo, antecedendo a data comemorativa da criação do Estado (escrevi aqui neste espaço), a Rádio UFT (da Universidade Federal do Tocantins!!! que tem curso universitário de História) amplificava uma canção (regional em ritmo de catira) sugerindo que teria havido um Deus a salvar a região Norte de Goiás. E esse Deus era Siqueira.
Nas ondas FM!!! De uma emissora pública. Imagina isto nas escolas públicas!!! Seria tal como imaginar professores ensinando a alunos que a terra é plana!!! Siqueira não só seria um enviado de Deus, mas o Deus em pessoa. Isto aí na Rádio da Universidade Federal. E não faz tempo: menos de três anos atrás.
Siqueira morto, prefeitos, deputados e governo, agora, disputam onde colocar seu nome: ponte FHC, Avenida Teotônio Segurado e agora o Palácio Araguaia. Um desserviço à sua história que poderia ser melhor conservada erguendo-se um museu com o farto material que Siqueira tinha sobre a implantação do Estado.
As futuras gerações teriam um museu da história de Siqueira que, ao contrário do que professa o servilismo siqueirista,. não resume nem substitui a história nortense. Antes, a acrescenta. Situação a que a própria parte da família de Siqueira - que conheceu sua luta de perto - que tem medidas deve ficar incomodadas com a distorção e superestimação da narrativa política.
Uma confusão que Siqueira talvez tenha projetado, ainda que, apesar do molde conservador e autoritário, Siqueira não perdia o bom senso e a razão: não iria construir no Estado ou na Capítal um prédio público pensado para receber o seu nome depois de morto.
Aliás, se o critério fosse dar nomes a logradouros públicos a personagens que ajudaram a criar o Estado (Siqueira apenas fundiu duas emendas, uma popular, das 72 mil assinaturas, e uma parlamentar de sua autoria), o ex-governador teria deixado para trás os que vieram antes dele, na mesma década da criação:
Adão Bonfim Bezerra, Antônio Luiz Maia. Antônio Maia Leite, Dolores Nunes, Marisônia Valadares, José Bezerra, Rui Rodrigues, Aldo Azevedo, José Carlos Leitão, Gercy Lino Bezerra Tocantins, Júlio Resplandes, Darci Coelho, João Rocha, Jaime Câmara, Zeza Maia (que cedia sua casa em Brasília para reuniões), Goianir Barbosa, os prefeitos Manoel Cortez (Cristalândia), Euvaldo Tomaz (Porto), Jacinto Nunes (Gurupi), Domingos Pereira (Formoso do Araguaia), Moisés Avelino (Paraíso), o ex-deputado Haghaus Araújo (Dianópolis), os deputados, Zé Freire, Totó Cavalcante, Brito Miranda, João Cruz, João Ribeiro.
Mais: Joaquim Quinta, Benedito Ferreira, João de Souza Lima, Odir Rocha, Henique Santillo (governador goiano), enfim. Isto aí na década de 80. Na década de 70 o movimento era liderado por João de Abreu (que dá nome ao prédio do Legislativo estadual), Darcy Marinho, Francisco Brito, Francisco Maranhão Japiassu, Ana Braga, Maximiano da Matta Teixeira, Coronel Pereira, Alziro Gomes....São apenas alguns deixados na beira da estrada.
Siqueira merece homenagens. Talvez não fosse ele a implantar o Estado e a Capital, a situação fosse diferente. Mas tanto a Capital como o Estado já eram pensados e defendidos muito antes dele, no mesmo lugar. Até o lago e a hidreletrica já estavam nos projetos e estudos da Eletrobras.
Estudos a que tive acesso pelas mãos do ex-senador João Rocha no ínício dos anos 90. Estudos que datavam das décadas de 50 e 60. E que Siqueira fez uso com inteligência política, deixando sugerir que a idéia fosse sua como a grande maioria acredita. Êxito total na propaganda e narrativa. Repito: sem confronto de historiadores e politicos.
O destino que lhe deu carona, portanto,como dizia o ex-deputado e ex-secretário Brito Miranda, tudo indica, a oferece a Siqueira na morte na reafirmação da negação da história que ele distorceu por mais de três décadas, não sem o auxílio de servilismos que afloraram com vigor inaudito nas suas exequias finais. E isto não significa desmerecer ou relativizar a sua importância para a criação do Estado.
O resultado é que o Estado do Tocantins foi criado no artigo 13 das Disposições Transitórias da Constituinte de 1.988. Depois de aprovado pelos 41 deputados goianos (unanimidade da Assembléia Legislativa de Goiás, condição sine qua non exigida pelo relator da Consituinte, José Richa) e o projeto teve a aprovação da maioria parlamentar no Congresso.
Encerrada a Votação 718, no dia 29 de junho de 1.988, o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, proclamava o resultado: 367 deputados aprovavam a fusão das emendas e a criação do Tocantins. Apenas um parlamentar votou contra (Ademir Andrade/PA) e houve 11 abstenções.
Dentre as abstenções, destaque para o deputado Luis Eduardo (filho de Antônio Carlos Magalhães) que, anos depois, nominaria a maior hidrelétrica do Estado, a de Lajeado.
Por decisão de Siqueira Campos.


