As distorções dos desdobramentos do caso da mulher que devorava cães na cidade de Araguaína em setores da sociedade e parcela da imprensa e redes sociais só são equiparadas, ainda nesta sexta, à indiscutível insanidade daquela que é tratada como “acusada”, quando vítima daquilo que se acostumou denominar de sistema.
As pessoas são levadas a deplorar o horror de um ser humano devorar cãezinhos, esticar couros no varal e a fecharem os olhos para a fome. No Tocantins, de acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar (2022), um exército de 281 mil pessoas está em situação de fome no Estado (talvez não tivessem um cãozinho de rua no varal, quem sabe) e outras 347 mil pessoas estão em situação de segurança alimentar moderada. Um Estado que registra um PIB (soma das riquezas produzidas em um ano) de R$ 40 bilhões.
E deixar de lado a falta de assistência social que, em absoluto, não se resume no Estado apenas ao poder público naquela que detém o segundo maior PIB do Tocantins, Araguaína (R$ 4,7 bilhões), onde se deu a ocorrência, e o segundo maior orçamento municipal: R$ 1 bilhão anuais.
Sem qualquer eco contrário, a imprensa informava ontem ao Estado (ao país e ao mundo) que a mulher que comia cães teria sido liberada pela Justiça (depois de presa ao invés de internada) mediante o cumprimento de restrições e que fora novamente detida por descumpri-las. No senso comum e no bom senso, só uma pessoa com problemas cognitivos imporia obrigações a um maluco. E as cobraria no seu cumprimento.
Não havia, até ontem, ainda assim, explicação de qualquer gestor público municipal ou estadual sobre o assunto. E aí a mulher – com explícitos sinais de insanidade – ganhou mais uma acusação: o papel de invasora de propriedade privada, com a defesa técnica do advogado do proprietário sobrepondo-se,nas versões, ao poder de Estado e à indiscutível evidência de ineficiência do sistema social e de saúde pública.
Poderia aqui resumir a questão da mulher que comia cães à ética religiosa onde a maioria, instintiva ou deliberadamente, a enquadra. Uma medida controversa dado que cães são pratos na China e outros países asiáticos e vacas, do churrasco brasileiro, são sagradas na Índia e no Japão não se vive sem uma barata no almoço. E judeus (gênese do cristianismo) não comem porcos.
Mas seria mero reducionismo como o é resumir a fome e a falta de assistência à demência da mulher “acusada” e “com provas” de devorar cães, a uma situação proveniente da vontade, do livre arbítrio e, portanto, escolha e não destino.
Ela reside, em larga medida, na deficiência do poder público e na vontade política. No Estado (Ministério da Saúde/2022), para uma população de 1,6 milhão de habitantes, existem apenas 20 Caps (que é onde são tratados os deficientes mentais, os antigos manicômios) – cinco deles para crianças e dependentes químicos - e apenas 15 psiquiatras para 139 municípios. A média nacional de Caps é de 1,33/100 mil habitantes no Tocantins é 1,24/100 mil.
Caps dependem de emendas parlamentares de deputados federais e senadores. Mas doido não vota. Não dá voto possibilitar tratamento digno a deficientes mentais. Eles não podem retribuir por que incapazes. E incapazes não tem direito a voto no país. Se pudessem, os depositariam num lugar qualquer onde não fossem vistos para não contaminarem o restante que dá voto. Em Araguaína, a retórica disseminada sugere que fosse encaixotada a mulher que devorava cãezinhos no xilindró. Mas aí contaminaria os presos provisórios que tem direito a voto.
Mas nada disso justifica o tratamento público de uma doente mental como acusada do crime de maus tratos a cães. Tangenciando a falta de tratamento que tem direito no SUS e que continua sendo negligenciado pelo poder público que não se atina em mandá-la para a cadeia como um depósito de lixo humano ao invés de abrigá-la em um quarto de hospital.
Com o beneplácito (e até cobrança) da socidade civil e política.


