Caros. Que diferença existiria entre os mascarados que protestaram ontem com tochas à frente do Supremo Tribunal Federal (e contra ele, lógico) das ações da Ku Klux Klan, contra os direitos civis? Que defendiam a supremacia branca, o nacionalismo, o antissemitismo dentre outras excrescências extremistas de direita contra os avanços civilizatórios?
Assemelham-se até mesmo na covardia de cobrirem os rostos como os cobrem nas fakes news e no anonimato de robôs nas redes sociais para achincalhar adversários políticos e ideológicos tratados como inimigos a eliminar. E que representariam uma minoria de estimados 30% da população do país tentando impor uma autoridade para governar uma nação proveniente não da vontade geral, mas de parte, como é expressado com o seu reconhecimento proporcional.
Estamos alcançando no país um estágio de negação de todas as conquistas de liberdade e de direitos. E impulsionado por estimados 30% da população contra os outros 70% que ainda (felizmente) ousam tentar resistir ao avanço da prepotência incivilizada (como toda o é) e primitiva (como o são tanto a ignorância do conhecimento ou a sua negação) fazendo uso de regras civilizadas.
Caso contrário, seria o caos, a desordem, confronto civil que, tudo indica, parece ser o que buscam, ainda que não o compreendam. Nem suas funções nem o resultado planejado pelos que os lideram e seus projetos ditatoriais que se apresentam absurdamente, na estratégia e modo, desprovidos de inteligência e racionalidade. Um misto de anarquia e despotismo.
Não haveria exemplo mais eloquente que o fato dos mascarados de ontem serem liderados por um dos investigados pelo STF nos crimes praticados nas fake news. E que, mascarado, levou seus liderados a também praticarem outros crimes contra o ministro Alexandres de Moraes. Ou não são injúria as palavras de ordem do grupo divulgadas hoje pelo UOL: "Viemos cobrar, o STF não vai nos calar. Careca tocado, Alexandre descarado. Ministro, covarde, queremos liberdade. Inconstitucional, Alexandre imoral".
Como se nota, a lei não os intimida. A Constituição não os regra. A civilização não os toca. Se tiveram alguma construção educacional ou formação humana, dedicam-se a implodí-la (e dos outros que tentam cooptar) no pressuposto de que direitos só os possuem os seus iguais. Como os nazistas, os stalinistas, os fascistas, os maoístas, os chavistas ou até os castristas de quem tanto dizem opor-se. Há um monte deles que a civilização cuidou de eliminá-los da humanidade mas que, volta e meia, se tenta ressuscitá-los no que de pior carregavam.
O oportunismo do Senado e da Câmara dos Deputados até hoje tem levado esta turma a ver liberdade de expressão como um valor absoluto. E não relativo como o é, afinal o direito de um acaba quando começa o de outro. Mas parece que direito, para o grupo, não acaba. Na mesma medida em que eliminam o do outro. Podem até praticar assassinatos, agredir fisicamente, que seria liberdade de expressão. O Supremo demorou mas reagiu. No Superior Tribunal de Justiça, os extremistas e criminosos ainda tem guarida.
Na Procuradoria Geral da República, se o pretenso candidato a cargo de ministro do STF não despertar para suas obrigações, será certamente atropelado pelos demais procuradores federais que tem como arma a Constituição da República. E se lá é garantida a liberdade de expressão, proíbe o anonimato. Cometido crime (que a lei não proíbe) o criminoso será punido no devido processo legal.
Essa inércia da democracia e do estado de direito é que o projeto em curso não só não respeita ou não concorda. Quer mais: eliminá-lo, substituindo-o por suas vontades. Uma minoria propondo tocar a maioria como gado na direção de princípios que a humanidade com muita luta de séculos conseguiu extirpar da civilização: a escravidão a déspotas. No Brasil, não esclarecidos.
Democracia é o respeito a todos. Inclusive à Suprema corte do país, o regulador da própria democracia.


