Os políticos imaginam-se viver numa bolha. De tanto fixarem-se no acessório, não enxergam mais o principal da razão por que tem salários públicos. E as regras de condutas que os obriga a liturgia do cargo.
Ainda existem as exceções que funcionariam, certo modo, para confirmar a regra. Mas que são engolfadas, voluntária ou involuntariamente, pelo sistema.
As declarações de bens de todos eles nos últimos trinta anos (disponíveis no TSE) não deixam de ser uma boa leitura na formação de conceitos.
Causou certo furor despropositado nos bastidores políticos ontem a especulação por este blog (conhecida de muitos) de um acordão de deputados para apoio ao ex-governador Mauro Carlesse na disputa o Senado.
Uns com boas razões para distanciar-se, outros nem tanto. Os deputados quando foram flagrados reunidos na casa de um parlamentar para dar apoio a Wanderlei Barbosa e cassar Mauro Carlesse, negaram-no até a morte.
Obviamente uns dizem ser leais a Wanderlei Barbosa (tem realmente aqueles quase-irmãos) como se isto negasse a possibilidade de apoio ao ex-governador. Ou mesmo de seguirem Wanderlei (antes o afirmam) caso o governador mude de avaliação sobre o seu ex-aliado. Como muitos auxiliares de Mauro Carlesse continuam no governo leais a Wanderlei. Em condições normais, seria desnecessário apontar as diferenças entre lealdade e fidelidade.
A movimentação dos parlamentares (que pode ser abortada) é, do ponto de vista de cada um (pessoal) até compreensível. Wanderlei Barbosa (a nove dias do prazo das convenções) demonstra-se inseguro, ainda que tente se mostrar certo do que quer. Se deixou escorrer que tem vice, não tem senador. Até mesmo a especulada aproximação com Dorinha Seabra parece ter mixado.
Voltou atrás na escolha da senadora Kátia Abreu (apontei aqui o erro tático do anúncio público antecipado de apoio no mesmo dia) e, após recursos auriculares, deixou o fogo correr, certa forma subestimando a parlamentar e seu grupo. E agora não tem o seu próprio grupo, como é notório. Na política, como na física, todo vácuo é preenchido.
Os deputados (e Wanderlei como parlamentar) fizeram o mesmo para cozinhar o pedido de impeachment de Marcelo Miranda por crime de responsabilidade (quando assumiria a vice Cláudia Lélis) para esperar a Justiça Eleitoral que cassaria a chapa toda (crime eleitoral), abrindo a vaga para o terceiro na linha de sucessão, Mauro Carlesse que Wanderlei, então, puxava pelos braços no Bico do Papagaio.
Cozinharam o pedido de impeachment de Mauro Carlesse (ação popular) no governo por dois anos, até esperar o afastamento e posterior posse do novo governo. Só após isto, depois do recado público de Wanderlei Barbosa (e da reunião secreta na casa de Amélio Cayres) mandaram para frente o impeachment.
Não com as razões do pedido anterior (encaminhado pelo Sisepe), mas do inquérito no STJ. Ou seja, um pedido que já nascia bichado porque dependente do STJ. Se cassassem Mauro Carlesse e o STJ o inocentasse, teríamos um escândalo nacional. E ali na Assembleia ninguém baba.
Os deputados, com efeito, já fazem de reuniões secretas um método e uma quase regra regimental. Uma conduta ilegítima. Reúnem-se secretamente para discutir sucessão da mesa diretora, para acertarem modo uniforme de cobrança de pagamento de emendas, para negociar aprovação de projetos do Executivo, enfim.
Se expandem ações ilegítimas (ou legítimas) da turma, não é de quem as amplifica a responsabilidade. Como escrevi no começo: os deputados andam dentro de uma bolha que esqueceram-se de suas razões de existir. Trupicam feito bêbados que se acham invisíveis.


