Uma semana (cinco dias úteis) após tomar posse como interino no cargo de governador (pelo prazo determinado de 180 dias), Wanderlei Barbosa revogou sua própria decisão (anunciada na posse) de não fazer movimentos bruscos e demitiu de uma canetada só ontem nove secretários nomeados por Mauro Carlesse que não eram objeto de qualquer investigação. Demissões foram publicadas no Dário Oficial de ontem a noite.
A decisão é legítima. No cargo, Wanderlei pode escolher suas próprias prioridades e auxiliares. O risco maior é da população caso não prevaleçam as atuais circunstâncias e malogre a intenção governamental. Politicamente, entretanto, não se pode dizer o mesmo.
Há nas nomeações indícios de loteamento de cargos a apoiadores do seu novo governo e que eram adversários do seu governo anterior. Expondo que o vice, embora não verbalizasse de público, não fosse mais aliado de Mauro Carlesse por algum motivo.
Como os novos aliados não mudaram os seus planos eleitorais que conflitam indubitavelmente com o projeto do vice, uma arapuca. Isto faz com que Wanderlei tenha mudado sem sair do lugar mas abrindo a guarda a concorrentes na sua raia, que o sujeita a um cruzado. Só uma questão de tempo.
Intuo que Carlesse talvez não enxergasse em Wanderlei um perfil de governador, apesar de sua comprovada aptidão para engendrar acordos político de que o próprio Carlesse governador seria um dos efeitos dela, em parte, decorrente.
Pela lógica política, entretanto, se quisesse queimá-lo seria mais producente a Carlesse apoiá-lo na campanha antecipada, como boi de piranha, atraindo, por um ano, os desgastes de seu governo, saindo livre para uma disputa ao Senado.
O vice não pode, entretanto, eximir-se de responsabilidades pelo que ocorre no governo para o qual também foi eleito. E não se viu Wanderlei vir a público opor-se a decisões que considerasse contrárias ao interesse publico tomadas pelo titular que substitui por enquanto provisoriamente.
Dai a contradição das “medidas de segurança” que o governador interino decidiu imprimir ao seu “novo” governo, negando, sem qualquer explicação, o seu governo anterior.
Dentre elas, a demissão do secretário da Fazenda, Sandro Henrique, cuja pasta será administrada interinamente pelo presidente da Adetuc, ex-prefeito Jairo Mariano. Não haveria outro critério que não dos afetos para deixar um e tirar o outro, ambos no mesmo governo.
Wanderlei teria convidado, a priori, Sergislei Silva (Planejamento) para a Fazenda. O Secretário, pudico, não aceitou. Mariano agora dividirá seu tempo entre administrar o potencial turístico do Estado e a arrecadação tributária (R$ 4,3 bilhões até outubro). Um valor R$ 971 milhões superior ao arrecadado de janeiro a outubro de 2021 contra os R$ 28 milhões de orçamento da Adetuc para 2021. Um desempenho que não se via há muito.
Caberá a Mariano no dublê de secretário da Fazenda e presidente da Agência de Turismo administrar receita de fonte 0100 (livre aplicação) de R$ 5,5 bilhões de janeiro a setembro de 2021. Um bilhão a mais que os R$ 4,5 bilhões de mesmo período do ano passado. Uma equação tendente a não dar certo, sendo mais plausível piora e não melhora de desempenho dado o histórico de um e de outro. Tem o benefício da duvida.
Aliás, a demissão de Sandro Henrique guardou motivação mais política que técnica. Sandro era um potencial candidato ao governo, pelo trabalho que desempenhava. Após a posse Wanderlei o convidou a ficar mas o mandou procurar o empresário Joseph Madeira que, nas palavras do próprio Wanderlei, seria o homem forte do governo. Não sem razão, o empresário foi nomeado na noite de ontem Secretário da Governadoria.
Sandro reuniu-se com Madeira no final de semana no escritório particular do empresário na Arse 21 onde o empresário teria reiterado sua importância no governo Wanderlei. Uma deselegância própria de vaidades e neófitos da política. O empresário terminou marcando uma reunião com o ainda Secretário no prédio da pasta as 10 horas da segunda. Encontro a que o empresário não compareceu.
Sandro juntou os fatos do final de semana (encontro de Wanderlei com Eduardo Gomes, Kátia Abreu, Irajá Abreu, Ronaldo Dimas e com o ministro do STJ em Brasília) e só aguardou o comunicado que lhe foi feito pelo ainda secretário da Casa Civil Rolf Vidal. O encontro de Wanderlei com Kátia ontem na entrega de máquinas não foi assintomático. Um evento a que Carlesse certamente não seria convidado nem compareceria.
Wanderlei nomeou ainda na noite de ontem o ex-vice-governador Darci Coelho (ligado a Eduardo Gomes) para Secretaria Extraordinário de Assuntos Parlamentares, o empresário Joseph Madeira (que foi vice de Eli Borges) para Secretário da Governadoria, José Humberto Pereira Muniz (Secretário de Parcerias), o empresário Carlos Humberto Duarte de Almeida e Silva (secretário da Indústria e Comércio), Rafael Sulino (Secretário de Administração), Wladmir Costa Mota (Segurança Pública), Afonso Piva de Santana (Secretario de Saúde), Sebastião Pereira Neuzim (Casa Civil) e Marco Aurélio Giralde (presidente da ATI).
E demitiu Divino Alan (Governadoria), Sandro Henrique (Fazenda), Elcio Mendes (Comunicaçao), José Humberto Marquez Pereira (Assuntos Parlamentares), Kleiton de Souza (Assuntos Estratégicos) Aldison Barros (Indústria e Comércio), Luiz Edgar Tolini (Saude), Rolf Vidal (Casa Civil) e Tiago Maciel (presidente da ATI).
Na noite de ontem, a informação era a de que os demais auxiliares de Carlesse pediriam demissão conjunta nesta terça-feira.


