Decorridos 33% do afastamento determinado pelo STJ (a completar-se nessa segunda) do governador do Estado, as posições de afastado e interino na prática se inverteram.
O deslocamento da base de um para outro no curto período de 60 dias sinaliza, em grau elevado, a fluidez e volatilidade das forças políticas e os elementos que as impulsionariam a escolhas dentre opções que se mostravam aliadas e de igual matriz há apenas dois meses. Movidas, até aqui, por narrativas ainda dependentes de certificação pela Justiça.
A transfiguração que se opera numa relação de comando e liderança de cinco anos, da presidência do Legislativo ao cargo no Executivo (a aliança dos deputados com Mauro Carlesse iniciou-se com sua eleição na presidência Assembléia em 2016), com a rapidez que se dá, e sem debates públicos ou exposição de posições de forma mais clara, tende mais a camuflar do que iluminar as intenções postas.
Tão subentendidas quanto dúbias - considerando-as demonstrativas de reflexos de altruísmo republicano - mas dependentes em larga medida das decisões da Justiça que, certo modo, medeia o pêndulo de um para outro ponto, conforme sua força de peso e tração. E que com o movimento as empurra a posições refratárias, ora ao afastado, noutras, ao interino, quando não submetidas a forças menos pudicas de influência.
Campo e território, neste aspecto, tem favorecido, com efeito, mais o interino tornar-se efetivo do que o afastado retornar ao cargo, deixando de sê-lo. A nota que a defesa do governador afastado fez circular ontem sobre recurso ao pleno do STJ expõe, com pouca ou nenhum margem de dúvida, a estratégia de esgotar todos os recursos ali, para depois recorrer ao STF.
A tática força a reflexão, no prazo em que se dá, sobre os termos da acusação e do acusado nas demais instâncias (e na própria sociedade) mas certifica que o governador afastado enxerga seu retorno mais numa decisão jurídica do que política, conferindo antecipadamente insuficiência de forças no Legislativo para barrar um impeachment por crime de responsabilidade.
Ainda que mesmo retomando o cargo, continuasse a enfrentar o até agora apenas inquérito, sem formulação de denúncia, que tramita no STJ por crimes comuns, não significando em absoluto que nele continuasse após o impeachment. De outro modo: adversidades lá e cá.
As circunstâncias, portanto, que afetam o afastado na sua intenção, são as mesmas que dão musculatura ao interino no cargo. E com a máquina nas mãos tem, certamente, maior capacidade de movimentação e de aglutinar forças à sua permanência, inclusive aquelas reacionárias que levaram o Estado à situação de quase insolvência.
Coisa que ele tem feito com maestria, apesar de populismos circunstanciais e episódicos que, não comedidos, podem comprometer o ajuste fiscal elaborado pelo governador afastado.


