Um retrocesso político esse do governador Wanderlei Barbosa de não participar de evento da Prefeitura pelo aniversário de Palmas e aproveitar a data e horário para conceder coletiva no Hospital Geral pretextando defender-se na regulação. Cotejando a simbologia do ato e oportunidade, uma soma negativa tanto política quanto administrativa.
Como é público, o problema não se resume a Palmas. Circunscrevê-lo a uma relação política de Wanderlei com Cinthia Ribeiro é ação diversionista que concorre para mais eventos-óbito.
Na Capital, a crise, por óbvio, tem maior ressonância que os próprios números. Dados públicos: só 1% dos atendimentos das UPAs segue para a Regulação do HGP.
Cerca de 300 pacientes mensais que, pela Secretaria Municipal de Saúde, perto de 40% são de outros municípios, como a dona de casa que foi a óbito na semana passada.
O Governador disse ontem que 70% dos pacientes do HGP seriam da Capital. Obviamente que o HGP é um hospital regional. Não sei se Wanderlei incluiu aí a região. Existem no Estado 17 hospitais regionais do governo. Palmas tem 20% da população do Estado. O HGP além de ser o regional, atende todas as especialidades.
Pois bem: em 31 de janeiro de 2023 esse memorando aí da Diretoria do HGP já informava à Secretaria da Saúde (Superintendência de Unidades Hospitalares) que a equipe médica da ASM (terceirizada das UTIs do HGP) havia limitado, por tempo indeterminado, a admissão de pacientes autorizados pela Regulação “em decorrência do grave desabastecimento de materiais, insumos e medicamentos”.
Ou seja, o HGP fechou aí para a Regulação. Limitou o acesso!! O que torna discurso morto a fala da Secretaria de que o HGP está aberto a todos. Não fecha as portas, para fazer uso do linguajar eleitoral e eleitoreiro que demonstraria o lado bonzinho da Secretaria de Saúde aquilo que a lei determina como sua obrigação.
Na prática, respondia a pressão de prefeitos que já se reuniam para que o governo solucionasse a questão da Regulação. Sim. Prefeitos de vários municípios. Críticas propagadas pela imprensa, especialmente os problemas de Gurupi, Araguaína, Porto Nacional e Dianópolis que tem maior ressonância na Praça dos Girassóis até por proximidade.
O discurso no HGP, pouco se duvida, assim, atenderia, secretários que não concordariam com a coerência e altivez pública e política de Wanderlei no início da semana. Quando, como um governador preocupado mais com a saúde da população do que com questiúnculas políticas, reconheceu o problema e recolocou o Hospital Municipal da pauta do governo.
Isto teria sido o suficiente para a porção Janad palaciana (sem voto, diga-se) envenenasse a relação,deslocando-a do cérebro para o fígado.
Tipo: não podemos assumir que estamos errados, que há equivocos, a eleição é no próximo ano, não podemos negar o secretário e coisa e tal. Os óbitos, a gente administra...É assim no meio político por mais que o cidadão, na boa fé, não aceite.
Aliás um problema que a Justiça determinou onde está: na Secretaria Estadual de Saúde. E aí Wanderlei, como em toda ação impensada e passional, pespegou de modo imprudente:
- Se a Justiça achar que a regulação tem que ser finalizada, eu recebo todo mundo, se não tiver leito, eu coloco nos corredores, nós vamos fazer o melhor que nós pudermos.
Ora, não é a Justiça que determina. É o poder da lei. Não é o Secretário de Saúde que tem que “achar que deve fazer a regulação ou não”! É o médico!!! Governadores e prefeitos tem apenas que cumprir o que determina a lei.Deixar pacientes nos corredores à espera de atendimento é crime. Por mais que no Estado gestores tenham ao longo dos anos transformado a irresponsabilidade em coisa rotineira.
E a lei manda que se não tiver leitos, o poder público tem que contratá-lo na iniciativa privada. Dinheiro? O governo fechou o primeiro quadrimestre de 2023 com R$ 1,9 bilhão de superavit (receitas menos despesas). Arrecadou R$ 6,5 bilhões e gastou apenas R$ 4,6 bilhões. Dado público. No Diário Oficial desta semana.
A declaração do Governador é tão despropositada que termina por oficializar a estratégia do secretário Afonso Piva de fechar as portas do HGP, como sugere suas ações. Como é o caso do Memorando 90/2023 aí de cima.
No mundo real, o governo recebeu no ano passado do Fundo Nacional de Saúde (recursos fundo a fundo) o montante de R$ 4,7 bilhões. E a prefeitura de Palmas R$ 1,4 bilhões.
O governo aplicou na saúde em 2022 a soma de R$ 2,4 bilhões. Destes, R$ 927 milhões na atenção especializada (a finalidade do HGP). Outros R$ 1,3 bilhão com salários e indenizações.
Na regulação (que diz respeito à crise colocada) do acesso do usuário R$ 13,1 milhões e outros R$ 27 milhões na organização da rede de ações de urgência e emergência.
Como é possível notar, os atendimentos de urgência e emergência custaram 4,3% do gasto do governo (em todo o Estado) no teto MAC.
E o que estes números indicam? Que os atendimentos de urgência e emergência seriam insignificantes em relação às especialidades.
De outro modo, os gastos com especialidades informariam, por outro lado, terem sido necessários os pedidos de vagas na regulação.
Caso contrário, os gastos com urgência seriam maiores, dado que o custo do HGP nas especialidades aumenta quando o paciente deixa o ambulatório e ingressa no sistema. Paciente que fica só na urgência volta para casa. E este, pelo números, custou apenas 4,3%.
Algo, como se nota, vai errado.


