Chico Natividade ganhou notoriedade no final dos anos 90 (quando Janad Valcari aproveitava seus quinze anos) como um político sertanejo genuinamente nativo. Um ícone do gênero para “intilictuais”, jornalistas e fazedores culturais. Era tipo o “amor perfeito” de Dona Maninha ou as “mandigas” de Dona Romana e seu cemitério de espíritos.
Chico com seu jeitão de matuto plasmava para muitos o tocantinense “da gema”. Mas na verdade era muito esperto. Era mesmo natural do Rio Grande do Norte mas para o Estado era um nativitano com o perfil dos negros e quilombolas. Poucos que o observassem diriam-no um potiguar. Assimilou tão bem o tipo "indolente" da literatura preconceituosa, que nele se deleitava e retirava lucro político.
Chico ganhou as eleições para prefeito da cidade de Natividade em 2000 em larga medida porque soube transformar passivo em ativo. Na reta final da campanha, as arquibancadas de um evento eleitoral noturno de sua candidatura tomadas de pessoas desabaram por pouco não provocando uma tragédia. Estava próximo, não só fisicamente, mas de auxiliares que temiam pelo pior. Chico transformou o que seria uma irresponsável estrutura de sua própria campanha em passivo do seu adversário.
Conseguiu incutir que Mosário Fernandes (o seu opositor) fosse o responsável pelo “acidente”. Ganhou com 200 votos de frente e quando assumiu se deslocou ao Palácio para pedir ao então governador Siqueira Campos a troca do padre, do delegado e do juiz da cidade. Chico entrou na prefeitura sem uma bicicleta para se deslocar. Fez campanha com um veículo velho doado pela então deputada federal Kátia Abreu. Saiu dali com um patrimônio considerável.
Decorridas duas décadas, idêntica estratégia é utilizada na Capital pela vereadora (e presidente da Câmara Municipal), advogada Janad Valcari, para justificar-se perante um delegado no inquérito policial (determinado pelo MPE) - que veio a público na última sexta - que investiga crimes de infração sanitária e desacato a autoridade. Para Janad, o inquérito seria perseguição política da prefeita.
É como se o cidadão fosse determinado a parar seu veículo numa blitz da PM, não respeitasse o sinal e, multado (ou detido) diria ao juiz que fosse vítima de perseguição política do Governador. Pelo inquérito, Janad retirou os cones que impediam veículos de manifestantes contra a prefeita de adentrarem o estacionamento em frente à Câmara. Que, por lógico, não é a Câmara nem é da Câmara. E havia uma lei proibindo aglomerações.
Como Chico lá em 2000 no seu primeiro mandato eletivo, Janad deve imaginar que pode trocar o padre, o delegado e o juiz. Se nem para Chico deu certo, não é certo que dê para Janad. Obviamente, o inquérito pode dar em nada e Janad não é uma ameaça pública. Ainda que exagere, exerce, grosso modo, prerrogativas parlamentares democráticas.
Para os excessos, existem os freios e contrapesos do Estado que estão aí mesmo para alertá-la. Como bem comprova a acertada decisão do MPE de colocar termo em arbitrariedades e descumprimento de leis. Até mesmo da presidente do Legislativo municipal, obrigada a cumprir as leis que o mesmo Legislativo aprova.


