Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Crônica de um Estado deserto de idéias e deixado à deriva pelo apoliticismo e praticismo anacrônicos e maléficos. Ou seja, três décadas perdidas!!!

22/05/2021 729 visualizações

O ex-governador de Goiás, Mauro Borges, tentou implantar ali na divisa do Estado (Arraias/Campos Belos) uma experiência socialista, semelhantes aos "sovietes" leninistas. Mauro era do MDB (PSD). Mauro foi eleito governador de Goiás e, após a intervenção militar, cassado, renunciou ao cargo.

Tentava fazer diferente do pai, o médico e ex-governador goiano Pedro Ludovico, que, como interventor no governo, criou Goiânia.  A fórceps, retirando a capital dos vãos da Serra Dourada de Vila Boa e alojando-a nos cerrados de Campinas. Ludovico era um jequitibá.

O ex-governador, também de Goiás, Ary Valadão (Arena/UDN) criou o Projeto Rio Formoso que fez da ex-região Norte de Goiás (Tocantins) – em Formoso do Araguaia - o segundo maior produtor de arroz do país. Diferente de Mauro, Ary foi nomeado governador pela Junta Militar.

Dele, no que implantou, se aproveitaria Moisés Abrão, um dos primeiros senadores tocantinenses mas oriundo da mais alta aristocracia e burguesia goianas.  Um empresário capitalista que soube ganhar dinheiro armazenando arroz para o governo federal naquela política que levou ao Plante que o João garante, do governo militar.

Projetava substituir o primeiro governador Siqueira Campos, de similar perfil ideológico. O cunhado, Irapuan Costa Jr governaria Goiás nomeado pelos militares quando ergueu a ponte sobre o rio Tocantins em Porto Nacional. Barrou-lhe, a Abrão, a própria estratégia siqueirista e o MDB/PSD de outro Moisés, o Avelino.

Ary foi ao solo com a morte trágica do filho, Aryzinho, num acidente de avião em Alto Paraíso que parou a capital goiana. Aryzinho é  hoje nome de escola tanto em Goiás como Tocantins.

Mauro era um teórico, Ary, prático. Ambos ex-governadores goianos. Um socialista eleito pelo voto popular, o outro nomeado governador pelos militares que implantaram a ditadura no país. Conheci pessoalmente a ambos. Tanto Mauro como Ary eram goianos. Este de Anicuns, aquele de Rio Verde. O Tocantins com 30 anos ainda não elegeu um governador da região.

O primeiro, Mauro, me chamou para conversar em 82, após receber em Goiânia, depois de eleito senador na chapa de Iris Rezende, uma carta de minha mãe para que ele conseguisse com que a Caixa me contratasse após concurso público. Havia passado no concurso de 81.

Havia demora da instituição a convocar os aprovados. Mauro me atendeu no gabinete do filho, então deputado estadual Paulo Borges Teixeira, na Assembléia de Goiás. Educadamente disse respeitar minha mãe mas que não podia interferir em órgão federal e pular a ordem dos convocados. Foi decente e era um coronel do Exército.

Minha mãe, uma porteira servente de Porto Nacional que o pai, jornalista Ananias Pinto (A Tarde-Carolina/Ecos do Tocantins/Pium) havia dado-lhe o que era disponível no então setentrião goiano: o ginasial e conhecimento da história da civilização. Sabe, desde então, a capital de todos os países do planeta e tanto escreve como fala até hoje um português castiço aos 84 anos.. Intuou por isto tenha chamado a atenção de Mauro Borges, em Goiânia, distante 850 km de onde estava.

Disse-me, também, Mauro que não conseguiria emprego junto ao governo Iris Rezende, que ajudara a eleger. Logo no início do governo, já demonstrava contrariedade ao estilo Iris Rezende, um governador que não aparentava mais a figura do Iris que visitava, depois da anistia no país, redações de jornal nas madrugadas, como naquela em que adentrou na revisão do jornal Folha de Goiaz na qual eu ganhava alguns trocados corrigindo jornal antes de ser impresso.

Já preferia, no Palácio das Esmeraldas, a política midiática de receber nas madrugadas os entregadores de jornal diariamente para tomar café da manhã. Iris queria demonstrar que, como os jornaleiros, começava no batente antes da cidade acordar. Dai para os mutirões de mil casas por dia foi só um passo. Mas não conseguiu escamotear seu autoritarismo "democrático".

O segundo, Ary Valadão, tive proximidade no boom de inaugurações de Agências da Caixa (já contratado) em Goiás (e Norte, hoje Tocantins) no período do presidente da empresa, Gil Macieira, também nomeado pelos militares. Ary e a esposa, Maria Valadão, eram amigos de Macieira e de João Figueiredo e Ernesto Geisel.

Lotado na comunicação social da empresa em Goiás, tinha que trabalhar nas inaugurações e processar, com certa benevolência, Ary discursar elogiando o “homem” (Macieira) que havia chegado com um avião arrastando a “bunda no chão” (aeronave às vezes Mitsubishi noutras DHC-5 Buffalo) ou quando as doses de wiskie faziam-no chamar Dona Maria de Maria Baiana ao invés de Maria Bahia Valadão, seu verdadeiro nome.

Ary, apesar do preconceito de muitos que achavam-no sem conhecimento (ainda que fosse advogado e inteligente) tinha boas intenções e hoje se vê que estava certo no Projeto Rio Formoso pelo qual foi bombardeado à época. Dona Maria também era advogada.

Observando hoje os políticos do Estado, se algo mudou foi a extinção dos teóricos após a criação do Tocantins. Prevalecem, ainda, os princípios da utilidade do praticismo que muitos denominam, equivocadamente, como pragmatismo. Não é possível discernir onde há política e onde é meramente  interesse pessoal.

O praticismo de Ary Valadão ao criar o Projeto Rio Formoso validou o capitalismo dado que não melhorou, economicamente, a renda assalariada da região. Muito pelo contrário: elevou a mais-valia. Ainda que tenha levado até hoje riqueza aos grandes empreendedores, era uma idéia, mesmo que capitalista.

Mauro e Ary eram idéias que provocavam discussão. No Tocantins, o pragmatismo não tem teoria. Me lembre aí um vereador, um deputado estadual, um deputado federal ou um senador que esteja a defender idéias!!! Alternam princípios como trocam de roupa.

Parece que o mais novo Estado do país, criado para ser diferente, é um deserto de idéias. E um oceano de pragmatismo. E o apoliticismo (e falta de consciência política) da população, que ignora a inércia, como é óbvio, favorece a que uma minoria prevaleça sobre a maioria, e se encarregue das tarefas de acordo com seus interesses particulares ou de grupo.

E não se vê perspectiva de alteração do quadro, tanto nas universidades, em particular, por ser o ambiente de discussão, quanto na sociedade de modo geral.

São, portanto, três décadas perdidas. De idéias e de práxis que não é só a prática utilitarista em si. Mas de transformação.

De que o então Norte goiano ressente até hoje.

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