Sábado, 24 de Out de 2026

Crônica de um dia chuvoso de Natal e lúdico da vida

24/12/2022 379 visualizações

A primeira e mais remanescente lembrança que restou-me do Natal refaz a alegria de meu pai ao entregar-me em um sábado chuvoso como este de 24 de dezembro e 2022, uma caçambinha de plástico. Depois de incentivar-me por dias a colocar, na falta de sapatinhos, chinelos de dedo na janela.

Éramos três os filhos, dificuldade tripla para um pedreiro que, em períodos chuvosos, restava como saída era andar pelas ruas com escadas nos ombros atrás de alguma goteira no telhado para reparar.

Nestas bandas do Norte goiano não existiam construtoras e fichar pedreiro era raridade. Tudo na empreita ou diária que nem sempre fazia coincidir pagamento com o dia de Natal. Havia natais mais azarados quando picaretas não efetuavam o pagamento na entrega da obra como planejado por meu pai.

E aí sobrava para o nosso Papai Noel: o presente era um pedaço de pano que meu pai fiava na Casa Nova Vida e nos mandava ao costureiro Constantino. Os três filhos com roupas da mesma estampa. Se fôssemos sete como hoje, um time de futsal. Com elas, íamos tanto para a Escola como para a Igreja.

Meu pai aprendera o ofício de pedreiro no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que ajudara a construir, orientado por seu mentor, Mestre Antônio, que o incentivou, mais tarde, a buscar trabalho na construção dos grandes prédios do poder em Brasília no final da década de 50.  E assim o fez.

Mas aquela caçambinha de plástico dos meus quatro anos substituiria, dali por diante, os caminhõezinhos que nós mesmo fazíamos com latas velhas de óleo comestível ou de sardinha e rodeiras de lambreta, para transportar nossos gadinhos de osso. 

Depois fui avançando e meu pai entendendo. Passou da caçambinha para a bicicleta Monark, aro simples, aro duplo, violão, o primeiro disco de Gil e Caetano (acho que achou a capa bonita) e mais tarde a bola de capotão com que substituímos as bolas com borracha de mangaba enrolada numa bixiga. E até entender que eu não gostava mais de cortar o cabelo no modo militar e sim cabeleira cheia, cujo corte no seu Cícero era mais caro.

Vim mais tarde a entender (e reconhecer) que essas narrativas construtivas lúdicas são relevantes na elaboração da personalidade. A ciência o certificou sem lograr êxito na prática como bem eloquente no domínio das crianças de hoje pelo logaritmo das redes sociais.

Hoje se pede de Natal o celular mais avançado e carrinhos de plástico só nas campanhas solidárias de distribuição de brinquedos a crianças de baixa ou nenhuma renda como éramos lá atrás. É cada um no seu quadrado.

O Natal de sábado chuvoso continua neste século XXI o mesmo seguindo a natureza. Só os meninos não estão nas ruas com suas caçambinhas de plástico. Meninos não naturais mas cibernéticos.

Um feliz e ludico Natal a todos os leitores e colaboradores que nos acompanham por aqui todos os dias nesta luta diária pela resistência e sobrevivência. 

Paz, saúde e felicidade a todos. E que venha 2023 com muto amor.

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