Há muito de desinformação, atavismo reacionário e interesses miúdos na reação à proposta do governo de licitar a concessão do Parque Estadual do Jalapão e Cantão. A discussão ontem entre deputados, secretários e militantes é até paradoxal porque só é possível em função da transparência da audiência pública que nega justamente a falta de transparência levantada. Muitas incursões no Jalapão foram autorizadas em governos anteriores sem qualquer questionamento da mesma militância e deputados. E também sem levar qualquer benefício aos nativos. Diferente do que propõe a concessão.
Primeiro: a concessionária não vai tomar terras de nativos e nem apropriar-se de sua cultura ou da matéria prima de que fazem uso os artesãos/artesãs do capim dourado, moto-contínuo da resistência exposta ontem na audiência pública no Legislativo estadual.
Ela, por outro lado, encobre que existe uma lei federal que autoriza concessão de parques ambientais. No país já funcionam sete parques nacionais concessionados nos Estados do Rio de Janeiro, Paraná, Goiás, Bahia e Pernambuco. São eles: Parque Nacional de Itatiaia, Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Parque Nacional de Foz do Iguaçu, Parque Nacional da Tijuca, Parque Nacional Pau Brasil, Parque Nacional da Serra dos Órgãos e Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha.
Existem outros dezoito em processo de concessão: Parques Nacionais de Aparados da Serra, Parque Nacional da Serra Geral, Floresta Nacional de Canela, Floresta Nacional de São Francisco de Paula, Parque Nacional de Brasília, Parque Nacional de São Joaquim, Parque Nacional da Serra dos Órgãos, Parque Nacional do Iguaçu, Parque Nacional de Jericoacoara, Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Parque Nacional de Ubajara, Parque Nacional da Serra da Capivara, Parque Nacional da Serra da Bodoquena, Floresta Nacional de Brasília, Parque Nacional de Anavilhanas, Parque Nacional do Jaú e Parque Nacional da Serra da Bocaina.
Ora, se vale para os parques nacionais que registram melhorias após a concessão, por que motivos seria diferente nos Parques estaduais do Jalapão e Cantão!!!
Não interessa aos produtores culturais nativos da região a desorganização e a falta de estrutura hoje existente. A situação favorece os exploradores que monopolizam o comércio de bens e serviços. E que não são submetidos a qualquer fiscalização mais amiúde. Ademais, concessão não é entrega de bens públicos. Ou seja, se não cumprir as regras (fiscalizadas pelo ICMbio, MPF e Naturatins) a concessão pode ser interrompida.
Uma pergunta aos moradores e militantes do Jalapão: os gringos quando foram autorizados por Marcelo Miranda (sem qualquer consulta) a gravar um programa (Suvivor) na região não tiveram qualquer reação dos ambientalistas do Estado. E sem qualquer contrapartida financeira.
A rede americana de TV CBS tomou para si o Jalapão (fechou) por três meses para gravar o programa Survivor, um reality show, comercializado para 120 países - menos para o Brasil.
Mais de 300 pessoas trabalharam confinadas no projeto. Foram 75 contêineres instalados para suporte do programa, numa área de preservação ambiental, transportados para lá sobre as estradas sensíveis do Jalapão. As gravações foram sendo feitas às margens do não menos sensível Rio Sono. Foram US$ 30 milhões em equipamento.
O Jalapão foi totalmente interditado ao povo tocantinense e brasileiro. Foi transformado em território americano, e até o espaço aéreo foi fechado. Para se ter idéia da "internacionalização", o avião do governador Marcelo Miranda (PMDB), que foi visitar as gravações, teve que mudar a rota porque não podia sobrevoar a área.
Fitas de filmadoras e chips de câmaras fotográficas - mesmo da Secretaria Estadual de Comunicação (Secom) - foram confiscados pela equipe da CBS e só foram liberados após 12 de dezembro, quando terminaram as gravações. Quem foi até o local diz que para entrar era necessário assinar um contrato, em inglês, de dez folhas (detalhe: até o governador!).
Americanos e australianos, que comandavam o programa, instalaram no Jalapão a bandeira dos Estados Unidos - nem sinal, nem qualquer lembrança, de que se trata de território brasileiro e tocantinense.
Também foram colocadas placas nas vias de acesso às dunas com as inscrições (em inglês e português) do tipo "dunas fechadas para o público" e "propriedade particular".
E agora é o governo que, pretendendo levar à discussão pública sobre uma concessão, é que deseja o mal para a região e suas comunidades. Ora, muita hipocrisia e interesses miúdos opondo-se a organização e infraestrutura de um das nossas melhores atrações turísticas.
E que ficou conhecida justamente pela modernidade. E não pelo vazio demográfico e desértico em que ficou relegado por séculos. Caso contrário, os quilombolas estariam até hoje fazendo artesanato para eles mesmos.


