As imagens de espancamento de uma mulher por policiais militares ontem em Palmas que correm as redes sociais são deploráveis. O Comando da Polícia Militar, fazendo eco às hipocrisias políticas, informou, ainda ontem, que vai apurar. É a mesma PM que obteve, com agilidade inaudita, da Justiça Militar a prisão de um militar reformado por declarações consideradas inapropriadas para um policial. A idéia de relatividade ou a falta dela é inevitável.
Apurar o quê? Os policiais já deveriam estar detidos. Nem que fosse uma medida educativa. O que mais haveria para ser investigado naquelas cenas brutais: uma pessoa desarmada, mulher e marmanjões de farda, cassetete e arma na cintura descendo-lhe o cacete como se nela descontassem a obrigação de trabalhar num domingo e pelo qual recebem salários públicos acima da média do trabalhador comum.
Se as cenas não tivessem sido gravadas, é provável que muitos estivessem por aí a esgotar que teriam reagido "a injusta agressão", como o fazem nos crimes que, não raro, praticam alegando resistência à prisão do "injusto agressor". Ou a PM tivesse circulado nota oficial defendendo-os da injusta agressão.
Óbvio que a PM não é formada apenas por valentões do tipo que não conseguem controlar seus instintos mais primitivos. Afinal, seus antagonistas estavam desarmados e não se combate resistência de cidadão desarmado com pau na moleira e arma na cintura, quando qualquer reação é tratada como desacato em que vale apenas uma versão: a do suposto desacatado. E que se note: não se tem notícia de invasor armado.
Não corrigidos, seguem sua régua moral. E convenhamos: é uma conduta de maus policiais (minoria, diga-se) que ainda encontra defesa na Corporação em larga medida por força do corporativismo pernicioso. A reação indica má formação talvez mais que má índole ou propensão à marginalidade. E aí a responsabilidade do Comando.
Invasões de áreas são crime, tanto de propriedade particular como pública e decisão de juíz é para ser cumprida. Nem que para tanto se use a força policial. Mas isto não lhes dá direito a praticar outro crime.
Os governos alimentam há anos a questão social da moradia na cidade de Palmas para dela fazer uso político. Já houve prefeito e vereador que incentivava invasões para poder regularizar e distribuir imóveis a eleitores e cabos eleitorais.
Com isto, conseguiam verbas federais, os proprietários recebiam polpudas indenizações, empresas de consultoria eram contratadas para projetos e aí você já viu: expandiram o plano diretor para área rural, transformando chácaras em loteamentos desgarrados da zona urbana. E aí mais grana federal para energia, equipamentos urbanos, asfalto, construções. Uma indústria paralela à questão social.
Um desvio que era encoberto pela indiscutível falta de moradias. Aliás, um dos líderes da invasão de ontem fazia parte deste grupo que deixou de lado até mesmo o fato de o imóvel já ter famílias cadastradas para sua ocupação. Ou seja: para alojarem-se no imóvel não se importaram em desalojar aqueles que cumpriram os procedimentos. Furaram a fila social dizendo-se combater as mazelas sociais.
A confusão mistura também os grandes proprietários de imóveis que os receberam do governo como pagamento de dívidas (contraídas sem licitação/dação em pagamento) no início de construção da cidade e os antigos donos que as tinham antes mesmo da criação do Estado.
Muitos conseguiram reaver suas terras no Supremo Tribunal Federal. Tem posse e propriedade. Pagando os impostos, não são obrigados a fazer a função social de prefeitura e governo.
De outro modo: os PMs bateram no lado mais fraco e menos armado porque só tem como escudo, excluindo-se os aproveitadores políticos, sua condição social.


