Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Comandante Vicentão faria 96 anos ontem, mas é indelével sua representação schopenhaueriana para a memória histórica, ética e cultural do Estado

luizarmandocosta 20/04/2020 539 visualizações

Estabeleço-me no dia-a-dia quase que rotineiramente sob a lâmina de dois filósofos que me acrescentam a cada virada de página (Arthur Schopenhaeur e Friedrich Nietzsche). Não que não aprecie Kant, Spinoza, Marx, Engels, Goethe, Gramsci e outros vizinhos de estante que me ensinam diariamente.

Ainda que Shopenhauer carregue muito de Kant, a antítese de Nietzche o ilumina clareando a questão em que mais opõem entre si: a vida como vontade e representação.

Um dualismo entre a realidade ou o que existiria apenas para o sujeito. Tudo no mundo seria representação objetivada do sujeito ou existiria independentemente dele.

Inclino-me a estacionar em Shopenhauer e distanciar-me de Nietzche no tema  porque não fora a representação do meu pai, Augusto (um pedreiro que abdicou de estudar para dar comida e educação aos sete filhos com seu ofício de sentar tijolos e tirar goteiras) talvez tivesse outros referenciais e diverso destino.

Recorro-me a Augusto (do alto dos seus 88 anos) para rememorar a representação que é (e sempre será) Vicente Paula de Oliveira, um alagoano que deixou Maceió, fez curso de instrutor de vôo em Recife e aportou no Norte de Goiás (Porto Nacional) depois de passar pela Bahia, Piauí e Maranhão. Pilotou seu avião dos EUA ao norte de Goiás sem rádio ou GPS. E que ergueu uma família honrada.

Vicentão (o comandante Vicente) faria ontem 96 anos. Augusto e o comandante Vicentão já na década de 60 convergiram o que já tinham de amizade, para outros laços: o Comandante com sua loja de material de construção e Augusto o mestre de obras em quem confiava.

Uma relação de reciprocidade não só comercial, moral e ética. Mas de amizade sincera. A memória me refaz (e me leva) aos meus afetos da rua Bartolomeu Bueno ao prolongamento na Praça do Centenário na esquina da Rua Grande, depois da Getúlio Vargas.

Ali onde a figura de Vicentão debruçava-se sobre o balcão com sua sempre cordialidade. Não raro me pegava sonhando em sentar-me na sua cadeira de balanço na laje da metade de um sobrado onde morava e tinha seu comércio, lugar que de vez em quando ocupava, para de lá enxergar toda a praça até o Cine Clube Rios. Intuo fosse aquela laje seu trono, local para refletir sobre sua luta.

Reporto-me a relações tais para realçar o comandante Vicentão, uma das personalidades mais marcantes da história de Porto Nacional e que só veio a ser reconhecido pelo poder público anos atrás dando nome ao Centro de Convenções da cidade.

É provável que não fora as emendas parlamentares do filho, ex-senador Vicente Alves e do neto, deputado federal Vicente Jr, a mediocridade da política municipal e estadual estaria relegando, até hoje, a memória de um tocantinense num Estado onde até Luis Carlos Prestes (que empastelou um jornal em Porto Nacional e se apropriou de bens da população na passagem de sua Coluna Prestes pela cidade) nomina memorial na praça dos poderes.

Como pregava a sábia contista e poetisa goiana Cora Coralina, a Aninha (Prêmio Juca Pato e intelectual do ano no Brasil/1983) de Vila Boa de Goiás: "Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do passado antes que o tempo passe tudo a raso".

Os portuenses não deveriam deixar que o tempo passe a raso a memória de Vicentão e de tantos outros honrados e lutadores que ajudaram,  com sua luta, a construir a cidade que hoje os abriga. Não sem muita história.

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