Pois é. O prefeito de Araguaína, Ronaldo Dimas, decidiu reabrir o comércio da cidade a partir da próxima segunda. Justifica que os comerciantes não podem ser o vilão. Como o hospedeiro do vírus (que mata) é a população, uma escolha.
Aliás, muito dos 2025 contaminados (e 20 óbitos) na cidade pode-se creditar, pelo que orienta a ciência, à resistência de Dimas (de partido aliado a Jair Bolsonaro e de cidade onde os agropecuaristas e comerciantes fizeram passeatas na campanha de 2018, alguns apontando armas) a aderir ao distanciamento social. Só o fez por força judicial que o obrigou a fechar o comércio.
Ele agora atende aos comerciantes quando a cidade registra uma incidência do vírus de 1.144 casos/100 mil habitantes. Dimas não é sociólogo ou estatístico, mas tem intimidade com números, engenheiro de formação que é. No Brasil, o índice ontem era de 296/100 mil e no Tocantins, 310/100 mil.
Os 20 óbitos na cidade significam 11 mortes/100 mil. Já próximo dos 16 óbitos/100 mil registrados no país com as 34 mil mortes até ontem. O terceiro maior número no planeta. E três vezes maior que o índice de óbitos no Estado do Tocantins, de 5 óbitos/100 mil.
Mesmo viés de Dimas defendeu ontem na CBN o prefeito de Paraíso, Moisés Avelino. Falando mais como médico (que não exerce a profissão regularmente há quatro décadas), Avelino disse que o distanciamento seria uma bobagem. E que apenas os idosos e com comorbidades deveriam ficar em casa.
Mais: que a reação contrária à cloroquina seria em favor da indústria e que ela combate, sim, a Covid-19. Exemplificou, no raciocínio teratológico, a comprovação do fato, porque ministrava o medicamento no trato de malária!!! Um atentado não só à lógica, mas a tudo que a comunidade científica médica orienta.
Talvez pela aplicação da tese do prefeito, Paraíso ontem registrasse 264 casos/100 mil habitantes e 12 óbitos/100 mil. Seis vezes, proporcionalmente, o número de mortes de Palmas (que adotou o isolamento em março), que registrava ontem 2 óbitos/100 mil e 228 casos/100 mil. Contra os 310 casos/100 mil e 5 óbitos/100 mil no Estado.
A liberação de Paraíso e Araguaína (Palmas também deve liberar) é, por certo, um incentivo às 34 mortes/100 mil de Araguatins e aos 2.408/100 mil casos de Darcinópolis ou mesmo aos 2 mil/100 mil casos de Xambioá.
Vida que segue. A rapaziada que já bebia sem máscara nas portas dos empórios (mascarando a fiscalização municipal) em Palmas, Araguaína e Paraíso, já poderão ter seus bares de volta até segunda. Para cultivar, mais tranquilamente, o vírus que, em ascensão, deve agradecer o impulso.
Em Palmas, é um escândalo. E eles acham normal. A subversão à orientação científica é, na verdade, incentivo a que continuem na ignorância que talvez não mate os sintomáticos. Mas vence os idosos e com comorbidades que podem, com larga probabilidade, pelas relações pessoais, atingir suas próprias famílias.


