Sábado, 24 de Out de 2026

Colapso é de UTIs mas Justiça obriga governo a convocar médicos até sem especialidade!! E governo o faz! Dois erros querendo dar em acerto!!

luizarmandocosta 04/08/2020 271 visualizações

O jornalista Ricardo Kotsho embrenhou-se pelo Nortão de Goiás no início da década de 70 para uma reportagem da Folha de São Paulo. De ônibus percorreu estradas até Porto Nacional. Na reportagem ele reproduzia um espanto: os ônibus de Porto em direção a Goiânia faziam "baldeação" em Gurupi.

O espanto era porque os passageiros eram obrigados a mudar de ônibus (era algo em torno de oito horas de Porto a Gurupi, um trecho de 180km que hoje se faz em 2 horas) mas os  motoristas continuavam os mesmos. Ou seja, havia preocupação dos empresários com a  máquina e não com passageiros e o homem que os dirigia.

Pois bem. Um juiz (estadual) de Araguaína mandou o governo convocar médicos (seriam 200 profissionais) de outras alas no HRA para atender pacientes nas 17 UTIs Covid do hospital. A Secretaria de Saúde (tinha que cumprir a decisão judicial), anuncia-se, convocou 176 profissionais!!!!Dois erros tentando se transformar em acertos.

Primeira questão: juiz não pode determinar (mesmo na melhor das boas intenções) que médico faça plantão sem querer. Nem que patrão obrigue empregado a trabalhar sem receber. E ainda tem a especialidade.

A decisão é tão frágil que um obstetra, por exemplo, pode se ver obrigado a assistir pacientes sem ser especializado em epidemiologia. Emenda pior que o soneto. Para o paciente, aumenta o martírio, a tentativa de refrigério do juiz. Entidades médicas devem certamente recorrer pois contraria o Código de Ética Médica (uma lei federal).

E não menos importante: o grande problema em Araguaína não são os médicos. E sim o colapso de UTIs. Ou seja, a decisão judicial obriga o Estado a elevar o número de profissionais (mesmo não qualificados para a pandemia), mas não trata do aumento de leitos de UTI na cidade que contava ontem 7.520 contaminados (28% de todos os casos do Estado) e 99 óbitos (25% das mortes). Apesar de ter apenas 11% da população do Estado.

Daqui a pouco, juízes nos municípios determinarão que médicos atendam a pacientes da Covid-19 e obrigue o governo a obrigar profissionais a fazê-lo, mesmo sem experiência. Pode-se ter um sem número de profissionais "convocados" e sem pacientes. Isto porque o que está faltando é leitos de UTI!!!

O colapso é nos leitos!!! E não nos médicos que, em Araguaína, se resolveria de forma administrativa: o governo pagando os plantões a que os profissionais não são obrigados a cumprir sem receber.

Ricardo Kotsho (hoje colunista do UOL) deveria retornar à reportagem. Pelo menos para ver em que deu o ex-Nortão de Goiás como Estado do Tocantins. Veria que continuam fazendo baldeação com as vidas.

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