Uma reportagem na noite de ontem na TV Record/Tocantins retratava que uma moradora da zona rural de Porto Nacional passara sete anos sem conseguir na rede de saúde uma cirurgia para retirada de miomas no útero que a fazia sangrar, com muita dor, por meses seguidos.
E só o conseguira após três reportagens da emissora desde março do ano passado. Além da fila extensa para o procedimento, não raro o governo não pagava os médicos e a fila parava de andar.
A fila cresce a cada dia e não anda. Obviamente os recursos minguam na mesma proporção em que aumentam os diagnósticos. Conheço no meu perímetro (que já é bastante reduzido) uma dezena de mulheres com o mesmo problema. Famílias inteiras sem rumo.
Em sete anos, o Estado teve quatro governadores: Siqueira Campos, Sandoval Cardoso, Marcelo Miranda e de 2018 até agora Mauro Carlesse. De 2013 a 2019, o governo teve de receitas orçamentárias algo próximo de R$ 70 bilhões no Estado (LOAS). Pela média, 14% disso aí (cerca de R$ 10 bilhões) destinados à saúde. Para 2020, prevê-se mais R$ 10,8 bilhões de orçamento e R$ 1,6 bilhões para a saúde.
Leio no Jornal do Tocantins nesta sexta que o Judiciário adotou o procedimento do Ministério Público e do Legislativo e aumentou o auxílio alimentação de seus servidores em 42%. Agora os funcionários privilegiados (já tem plano de saúde e aposentadoria integral) terão um adicional para comida entre R$ 1.400,0 e R$ 1.700,00.
A grana que banca o benefício é da parte que falta para centenas de mulheres retirarem miomas de seus úteros para não irem a óbito. Vem do mesmo cofre e dos mesmos impostos que deveriam abastecer as farmácias dos hospitais com medicamentos.
E para a fila das cirurgias eletivas e quimioterapia de pacientes em tratamento de câncer que o poder público os deixa, não raro, esperando a morte chegar com as desculpas mais esfarrapadas como a não entrega pelo fornecedor ou aumento de demanda, desproporcional ao orçamento que, para 2020, é próximo de R$ 1,690 bilhões.
E me pergunto: que Estado é este? Que Justiça é esta? Que promotores e procuradores são estes? Que deputados são estes? Auxílio alimentação de R$ 1.700,00 (além do salário, plano de saúde e aposentadoria) num Estado onde 32% da população empregada percebe até um salário mínimo (R$ 1.040,00/2020).
Ou seja, 206 mil pessoas ocupadas ganharão este ano metade do que os servidores do Legislativo, Judiciário e Ministério terão de ajuda para comida. E podem, estes ocupados, considerarem-se os privilegiados de um exército de 76 mil desempregados (Pnad contínua 3º trimestre/2019) e de 512 mil fora da força de trabalho.
Pessoas que tiveram o salário reajustado em 4,2%, com um aumento de R$ 40,00 no salário mínimo anterior de R$ 998,00!! E os poderes reajustam seus benefícios em 42%!!!!
Devem estar nadando em dinheiro. Deveriam compartilhar o endereço da mina de ouro.
Uma concertação ignóbil porque os servidores não recorrerão contra seus bolsos e em favor do bem comum. A população que depende dos hospitais públicos e do pouco que tem de salário não terá também, pelo mesmo motivo, açôes em seu favor do MPE, Justiça e deputados.


