Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Campanha eleitoral, Simãozinho açougueiro e o osso da carne

luizarmandocosta 17/10/2020 278 visualizações

Nas décadas de 60/70 quando a pessoa queria comer um pedaço de carne em Porto Nacional, tinha que submeter-se a Simãozinho. Ele e outros irmãos viviam do ofício de matar porcos e vacas e revendê-los no mercado municipal (hoje Biblioteca Eli Brasiliense).

Carne era produto raro. E sem vigilância sanitária. Às vezes, Simãozinho matava e descarnava porcos na contra-esquina do mercado, num lote baldio. De madrugada, escutava-se os gemidos do porco e o barulho do machado na cabeça do animal.

E depois o barulho da carroça puxada por um burro transportando o produto nos 200 metros que separava o "matadouro" improvisado do mercado. Houve época que se carregava carne no gancho e depois passou-se à modernidade: papel de embrulho de pão não embrulhava mais só pão.

Filas longas de carne, pedia-se a Simão um quilo de carne de primeira (só existia carne de primeira ou de segunda). Simão jogava no prato da balança um pedaço de carne junto com o osso e antes que o prato encontrasse a tara da balança, o retirava. Era pegar ou largar. Se se questionasse, Simãozinho tinha a resposta na ponta da língua: uai, você leva a carne "muciça" e eu fico com o osso? Era o chamado "osso da carne". Se não quer, tem quem quer.

Ainda que se pagasse o preço de carne de primeira (sem osso) se era obrigado a levar o osso e Simãozinho via aquilo tudo normal. Uma fraude, claro, que hoje poder-se-ia tratar como relações indevidas de mercado. O cidadão vende o produto com o preço que acha conveniente, mas há regras: carne de primeira não tem osso. Ou não é carne de primeira.

Na campanha eleitoral de 2020 muitos candidatos hoje lutam para não levar o osso da carne. Querem o bônus de seus apoiadores, mas já começam a perceber o ônus do osso da carne. Precisam da carne mas não querem o osso que vem junto. E não podem largá-lo na metade do caminho.

Assim como não podem fazer igual Simãozinho: se não quer o osso, não leva a carne.

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