Diz-se que quando a memória de um homem é venerada unanimemente, sendo sua figura modelo de virtude e fonte de inspiração para todos, isto significa que a História o absolveu
Já no final da década de 70 eu enfrentava, como hoje por motivo diverso, melancólico e triste, as madrugadas insones da redação do jornal Folha de Goiaz (Diários Associados/Assis Chateaubriand) revisando o jornal (junto com o jornalista Tião Pinheiro, hoje secretario estadual de Cultura) que o assinante/leitor compraria nas padarias antes do dia amanhecer, quando veio a ordem: parem as máquinas.
Na redação, o editor de Cidades/Bairros era o jornalista Luiz Pires, hoje na Diretoria de Comunicação da Assembléia do Tocantins e o oficce-boy um garotinho franzino, moreninho, cara de sertanejo, que viria a ser hoje o competente e experiente delegado de Polícia Civil do Tocantins, Reginaldo Menezes Brito, oriundo das barrancas da velha Boa Vista do padre João, a Tocantinópolis. Tempo em que o jornaleiro gritava pela ruas de Goiânia: olha a Folha e o Popular!!!! Antes do: O Popular e a Folha!!
Na impressora, que se via da redação, em piso inferior, os técnicos instalavam a última chapa (o jogo da 1ª, 2ª e penúltima e última páginas) e a fotomecânica já fechara.
Meia hora depois, aparecia o editor geral, jornalista Elton da Costa Campos, com um texto fantástico numa lauda de 25 linhas.
O título não era menos histórico, construído como da lavra do velho jornalista político goiano Geraldo Mavalle: CAIU O JEQUITIBÁ, letras garrafais, encorpadas, maior fonte que cabia na régua de “picas”. Muito pouca gente sabe o que é isto hoje com as facilidades do Iphone.
Falecera o médico, interventor e ex-governador goiano, Pedro Ludovico Teixeira que não havia criado Goiás, mas transferido a capital goiana de Vila Boa para o cerrado de Campinas. Enfrentando as oligarquias alojadas nas margens do rio Vermelho de frente para a Serra Dourada. Primeiro como interventor e depois eleito pelo voto popular.
Ludovico conseguiu fazer um filho, Mauro Borges, governador. Mas falecera levando uma vida simples, franciscana até, ali na casinha de alpendre na Rua 26, a poucos metros do Palácio das Esmeraldas.
Entrou para a história goiana como um democrata, defensor dos humildes. Do PSD (oposição à ditadura Vargas) era, entretanto, autoritário e principista. Conforme os historiadores, brabo e bravo ao mesmo tempo. Chegou, certa vez, para defender um jornalista, empunhar uma arma no Palácio para debelar insurgentes. Muito pior que os lançamentos de celular à distância de Siqueira em reunião de secretários quando contrariado.
Foi, mais por suas qualidades do que por seus defeitos, o maior e mais respeitado líder político de Goiás do Sul. O mais que dele aproximou foi Iris Rezende que o populismo e manipulação da massa utilizado com método pelo caudilho emedebista o jogou na vala comum.
Igual sensação tive ontem as 19h35 quando deparei-me com o twitter do ex-deputado Eduardo Siqueira informando o falecimento do seu pai, o ex-governador Siqueira Campos.
De imediato pensei: CAIU O JEQUITIBÁ. E já não se tinha editores e jornalistas na madrugada, diagramadores e suas réguas de pica, fotomecânica, chapas ou impressoras para se gritar: parem as máquinas. Parecia que a eternidade caíra serena, sem resistência e compreensão maior do que dor. Sucessão e não ruptura.
Siqueira, afinal, sempre foi também autoritário e principista, brabo e bravo.E tinha com o jornalismo uma relação de amor e ódio. Muito embora seus admiradores, regra geral, preferissem enxergá-lo diferente: um paizão acolhedor mais que um pai-patrão. Cada um, a seu modo e forma, na medida de seus afetos, necessidades e providência, deve ter suas razões indiscutíveis para isto que só diriam respeito a si mesmo.
Como Ludovico, Siqueira cumpria uma vida também franciscana numa casa modesta (também a poucos metros do Palacio Araguaia que ergueu) de frente para a Serra do Carmo ou do Lajeado como a denominam alguns, para referir-se a parte da Serra Geral que corta o país e margeia a Capital, desenhando o vão urbano com o lago da UHE Lajeado, também implantado por Siqueira,ainda que previsto décadas antes em estudos da Eletrobras/Eletronorte justamente à altura da cota 222m de uma cidade com altitude média acima de 367m acima do nível do mar.
E também como Ludovico, apesar da densa trajetória política, quase 60 anos de mandatos, seguia sem qualquer acusação de desvio de recursos públicos. Foram quatro mandatos de governador, cinco de deputado federal e um de vereador. Todos nas urnas.
Na coordenação de redação do Jornal do Tocantins em Palma que eu era responsável no início dos anos 90, junto com um grupo de jornalistas competentes, idealistas. guerreiros e orgulhosos de fazer parte de uma construção inigualável, uma Capital e um Estado, Siqueira todo fechamento da edição (no começo duas vezes por semana, depois três e por fim diário) aparecia (por telefone) com um assunto que inevitavelmente se transformava na principal matéria do jornal. Quando o tijolão do celular tocava, parávamos tudo: era o "próprio".Mas não aceitava críticas.
E aí era a correria para redigir a matéria, transmiti-la via fax para a editoria geral em Goiânia (afinal era informação quente e do "Próprio" ) a tempo de pegar o horário de impressão e do voo de volta da TAM no final da noite com o jornal impresso de forma que pudesse ser redistribuido na madrugada nos ônibus na rodoviária para alcançarem o interior do Estado antes do meio dia. Seja no Bico do Papagaio ou em Palmeirópolis.
Coisa de um Estado e uma Capital que estavam sendo implantados com mão de ferro por um ex-deputado federal eleito primeiro governador para um mandato de dois anos sem direito a reeleição (só aprovada em FHC) quase uma década depois.
E que no jornalismo dava-nos a impressão de sermos correspondentes de guerra com aquelas maquininhas que gastravam até 30 minutos para transmitir um fotografia preto e branco de Palmas a Goiânia, o tal telefoto..
Ainda assim, no começo dos anos 2000 convidou-me para editar um jornal de que era proprietário. Não aceitei, não por sua causa, ideologia ou outro tipo de divergência, tinhamos mais convergências do que divergências, que realçavam ponderações e propósitos, no mais das vezes, comuns.
Mas porque havia pedido demissão do cargo de sub-editor e colunista do Jornal do Tocantins e não iria trabalhar num jornal diário concorrente que, a meu ver, passaria à OJC a impressão de que fosse proposital.
Justifiquei e expliquei o não aos então diretores da empresa de comunicação do grupo Siqueira, César Hallun e Arhenius Naves, incumbidos da missão de convencer-me a aceitar editar o diário que Siqueira tinha como uma de suas paixões (a outra era a política), num prédio que, curiosamente, situava-se à época, de frente para OJC.
E se rivalizasse com os veículos do jornalista Jaime Câmara, que retirou-lhe votos, lideranças e colégios eleitorais na disputa para deputado federal antes da criação do Estado, melhor ainda. Desenrolei o novelo e me desincumbi do rastro de emboscada sem maiores danos colaterais no relacionamento com o ex-governador, que, então, governava o Estado já pela terceira vez.
Como Ludovico (que inspirou o luduviquismo) Siqueira (com o siqueirismo) influenciou, a seu modo, na história do Estado do Tocantins de forma similar à intervenção de Pedro Ludovico na história goiana. Ambos convergiram no determinismo histórico. São, de fato, os dois maiores líderes do Centro-Oeste brasileiro pós-República.
Divergiram na prática: enquanto Ludovico era oposição, Siqueira foi em toda sua trajetória político da situação. Ludovido, PSD e Siqueira, UDN. No movimento Diretas Já (pela volta da eleição para presidente) escolheu os militares.
No colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves, ficou com Paulo Maluf, candidato do regime militar. Mas gostava de dizer que tinha sido comunista.
Na Praça dos Girassóis, dois monumentos que colocou registram a dubiedade: Memorial Prestes (comunista) e o Monumento aos 18 do Forte de Copacabana. Tenentes que queria dar um golpe no governo de um presidente eleito. Por pouco não derrubaram, na década de 30, o presidente Arthur Bernardes.
Escolhas democráticas, mas que turvaram, certo modo, a memória do Estado. Eu que cresci em Porto Nacional (considerada o berço da criação do Estado) acompanhando a luta dos meus ancestrais pela separação de Goiás antes, muito antes mesmo, de Siqueira aportar por Colinas, era testemunha da distorção em meio a fatos e movimentos verdadeiros dos quais o próprio Siqueira participou.
Num contexto em que a parte circunstancial, certamente, não substitui o todo histório. Na mesma proporção em que não lhe invalida o seu estupendo esforço e luta. E isto não diz respeito a afetos ou gratidão, gostar ou não gostar de Siqueira, ser adversário político, aliado ou inimigo, interesses contrariados ou não. Resistência histórica e respeito ao passado, como deve-se respeitar a história do ex-governador no que lhe toca de mérito.
Como Ludovico criou Goiânia, Siqueira fundou Palmas. Mas como Ludovico não criou Goiás, Siqueira também não criou o Tocantins que é resultado de luta centenária, 80 mil assinaturas, duas emendas na Constituinte (que Siqueira, sim, as fundiu) e o apoio unânime dos deputados e governador goiano. E também não conseguiu materializar seu sonho de eleger o filho governador, como Pedro Ludovico viu florescer em Mauro Borges.
Mesmo que ele tenha firmado propositada e contraditoriamente este discurso e parte dos migrantes para o Estado depois de sua criação o tenha adquirido como valor de face e o transformasse como dogma contra a tradição não só memorial, mas oral do ex-Norte.
Ele bem que tentou antes criar o Território do Tocantins e ter apresentado outros projetos que foram aprovados no Congresso, mas vetados por duas vezes pelo então presidente José Sarney. Muito embora não se despreze o trabalho incansável (e exitoso) do ex-governador para implantar, aí sim, o Tocantins já criado.
Como abri este artigo: quando a memória de um homem é venerada unanimemente, sendo sua figura modelo de virtude e fonte de inspiração para todos, isto significa que a História o absolveu.
E se o comparo e a sua biografia á de Pedro Ludovico é para dar-lhe a justa dimensão, desgarrada da gratidão dos afetos, sentimento apenas acessório de que sua intervenção política e administrativa é o elemento principal nesta região colonizada, como os goyazes, pelo miliciano Anhanguera (tratado como bandeirante) e seu filho, Bartolomeu Bueno da Silva, que é inclusive nome de rua em Porto Nacional e em Vila Boa de Goiás. Mercenários que aceitavam explorar o Brasil em troca das riquezas minerais que conseguissem garimpar.
Nada diferente dos mercenários de hoje nas terras indígenas explodindo rios em busca de ouro, incentivados, até o ano passado, por um ex-presidente da República. Como Anhanguera botava fogo numa tigela de cachaça e ameaçava os índios de tocar fogo nos rios, essencial para suas vidas. O tal Diabo Velho que ganhou monumento no cruzamento das duas principais avenidas da capital goiana: Anhanguera com Goiás.
Siqueira entrou para a História como o maior personagem de seu tempo. Diferente dos deputados federais, estaduais e governadores de Goiás e Tocantins que lhe são ou foram contemporâneos. Pode-se refutar suas escolhas políticas, mas nunca seu trabalho, esforço e autenticidade.
A história lhe fará a devida justiça e dará a dimensão de seu esforço político. Coisa que as pessoas que migraram para o ex-Norte depois da criação do Estado já o fizeram sob suas próprias medidas.
O bastião do siqueirismo e de Siqueira, agora, segue com o filho, Eduardo Siqueira. Uma vontade, como um testamento em vida, manifestada na semana passada na voz do nosso velho (mas até então ainda não cansado) jequitibá.


