Ela poderia ser Tiana, Sebastiana mas é Basti. Uma negra analfabeta que quando adolescente, no auge de sua formosura física, foi vilipendiada por "chalaças" e "foguinhos", que enfiaram-lhe na sua inocência meia dúzia de rebentos.

Basti tem o sobrenome nobre de Alexandria, mas viveu mais como Anastácia  que como Chica da Silva num casebre de adobe sem reboco no fim da rua do Pau DÓleo, em Porto Nacional, onde ainda mora na solidão de sua idade e no vazio de sua alma cansada.

Mas pulsando como quando me embalava nos seus braços quando criança e ainda hoje cultivamos como nossa família que é. E de quem não se pode falar que tenha ficado com uma agulha que não fosse sua.

Os canalhas que a contratavam mais para bulinar-lhes os dotes que para cozinhar-lhes comida muitos ainda estão aí. Inclusive um deles, militar do Exército que, como Jair Bolsonaro, compatibilizava o cargo de comando de uma região militar com o de escravocrata na segunda metade do século XX, no mais escroto exercício de seus instintos bestiais. Porto deveria ser colônia de sua origem fluminense praiana e o sertanejo, seu servo. Sem contestação da elite local.

Punição ou arrependimento, tudo indica, apenas divinos pelo sofrimento que perspegou numa jovem negra analfabeta e que tinha apenas a força das mãos e braços para tentar pelo menos sobreviver, que fosse. Intuo que achassem um direito apropriar-se do corpo de uma negra adolescente por pagar-lhe um salário e manter a relação Casa Grande e Senzala, ali, numa cidade então considerada berço intelectual do Norte goiano. Nossas elites de sempre.

Basti de Alexandria seguiu o destino da mãe negra Fulozina, das irmãs Tereza e Maria. Da meia dúzia de filhos de pais canalhas, um enveredou-se nas drogas, outro foi morto por traficantes, um encontra-se preso e outro tem problemas de saude. O circulo vicioso da pobreza e da negritude.

Só Basti, com mais de oito décadas de idade, continua no seu ofício tateando a vida como um cego, sem saber ler ou escrever, mas lutando pela sobrevivência. Ainda que todos na cidade saibam o nome dos pais dos seus filhos, nenhum o reconheceu, paga pensão ou dá-lhe uma atenção.

Basti não tem hoje mais ciclo menstrual. Mas entre uma gravidez e outra que lhes impunham algum canalha, absorvia o sangue de suas partes com pedaços de cobertores ou nacos de tecido usado.

Usava, lavava e os colocava no varal para secar. Na  minha infância não entendia por que Basti o fazia. Depois o entendi como hoje entendo milhões de adolescentes a fazer uso da mesma estratégia na escolha entre o absorvente e um pedaço de osso.

É o que hoje se denomina pobreza menstrual. Não sei se o termo traduziria a pobreza do ciclo, com menor fluxo, ou a pobre sem condições financeiras para enfrentá-lo com o mínimo de dignidade e higiene. Mas dá na mesma porque a ordem dos fatores não altera o produto.

O veto de Jair Bolsonaro, assim, a recursos para distribuição de absorventes a mulheres em condições de miserabilidade em nada difere daquele sargento do Exército que vangloriava-se de manter relações sexuais com uma negra pobre e analfabeta, sem condições de dizer não ao superior racial. E sequer podia entender os nacos de pano sujos de sangue estendidos nos varais a cada 30 dias.

Uma situação que no Estado do Tocantins atinge 47% das meninas no Ensino Fundamental. São as nossas Bastis de Alexandria do Século XXI enquanto a maioria se esbalda compartilhando fake news e vaidades pessoais nas redes sociais.

Decisão ignara de um presidente da República que não recebeu o tratamento adequado repelente e, mais que necessário, obrigatório, dos onze parlamentares eleitos do Tocantins no Congresso Nacional. Oito deputados federais e três senadores calaram-se num silêncio envergonhado, revelador de pundonores impronunciáveis e inclasificáveis. Tão denunciador da desonra quanto os panos sujos de sangue das intimidades das negras e pobres estendidos nos varais.

Pobreza menstrual não é com eles!! Ainda que três parlamentares federais fossem justamente mulheres que sangram mas não precisam dos panos velhos nem dos varais para estender suas vergonhas.

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1 Comentário(s)

  • Cristiano Viana
    13/10/2021

    Parabéns pelo artigo! Para além da crônica que narra a realidade de muitas pessoas, percebo que há no seu relato um potencial de denúncia e processo judicial, uma vez que o texto indica que os autores dos crimes estariam vivos. Mesmo que os crimes de estupro tenham prescrito, talvez existam outras formas de enquadramento penal e reparação.

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