A disputa inócua e superficial é coisa para quem faz da burrice alheia instrumento de afirmação política.
Dissemina-se no país a possibilidade de o PL perder deputados para o partido que escolher Jair Bolsonaro (que ainda é do PL) na janela partidária de março/24.
O grande “pulo” do gato é que os deputados deixando o PL e migrando para outro partido com Jair Bolsonaro (que não manda no PL como não mandava no PSL que o elegeu) os bolsonaristas carregariam a grana do fundo eleitoral.
Obviamente, mais um fake-news. Pela lei, a grana é do partido e não do parlamentar. E a régua de distribuição é a bancada de deputados eleita na eleição anterior.
Se o deputado decidir ir para um outro partido da base de Jair Bolsonaro e à sua escolha, deixará para os que ficam no partido um bolo maior para a campanha municipal. E irá disputar grana para seus candidato a prefeito no novo partido com os líderes partidários que lá já estão.
Lá no ano passado (a bancada que vale), o PL elegeu 99 deputados (a maior bancada, portanto, a maior grana do fundo), o PT elegeu 68 deputados, União Brasil (59), PP (47), MDB (42), PSD (42), Republicanos (41), PDT (17), PSDB (13), PSOl (12) e Podemos (12), para ficar nas maiores bancadas.
Deslocando a força financeira e política para o Estado, teríamos Eduardo Gomes (PL), Zé Roberto (PT), Dorinha (UB), Marcelo Miranda (MDB) e Wanderlei Barbosa (Republicanos) com mais grana no bolso.
O problema aí é que destacam-se, por enquanto, como bolsonaristas de raiz apenas dois deputados evangélicos do PL e um do PP. Ainda que os oito deputados federais eleitos o tivessem feito no palanque de Jair Bolsonaro. Ou seja: pouco ou nada de força política para barrar qualquer coisa.
Não se projeta Dorinha Seabra, Eduardo Gomes ou Wanderlei Barbosa embarcando numa aventura semelhante ao embarque e desembarque do ex-presidente do PSL.
Perderiam mais do que ganhariam. Tanto política como financeiramente. Para se ter uma idéia, na campanha de 2022, Wanderlei Barbosa teve R$ 6,3 milhões do fundo eleitoral (gastos de R$ 6,6 milhões). Destes, R$ 5 milhões vieram do UB (Dorinha) e R$ 1,1 milhões (Republicanos).
No PL, de Eduardo Gomes, a campanha de Ronaldo Dimas de R$ 1,5 milhão para despesas contratadas de R$ 6,4 milhões. Também o PT repassou para Paulo Mourão R$ 1,5 milhões (de despesas de R$ 2,1 milhões).
O PSD aplicou na campanha de Irajá Abreu, de fundo eleitoral, o total de R$ 6,5 milhões em 2022. Ou seja, 95% de tudo que Irajá gastou na campanha vieram do PSD.
É grana que pode, sim, atrair os bolsonaristas descontentes com Valdemar Costa Neto, mas encosta definitivamente Irajá (que tem relação até pessoal com Bolsonaro e filhos) no bolsonarismo. Algo que, até aqui, apesar das relações públicas, o Senador tem evitado.
E aí funcionariam as disputas políticas regionais. O grupo de Eduardo/Dorinha/Wanderlei seria Valdemar e o de Irajá, Jair Bolsonaro. Parece enredo de ficção, mas é perfeitamente possível de acontecer.
Ou seja, Irajá poderia vir a ser o Eduardo Gomes de Jair Bolsonaro amanhã, caso se materialize essa construção política da janela partidária tal com que o PL se engalfinha com oito meses de antecedência do prazo, pensando na eleições municipais daqui a um ano e dois meses.


