Nesta sexta-feira da Paixão, quando os católicos não podem ir às ruas pela procissão do Senhor Morto, os homenageio com trechos do meu livro Na Curvatura da Cruz, sobre a romaria a Nosso Senhor do Bonfim, que sigo a partir de Palmas desde 2010.
"Abraço as deformações da estrada como se sujeitasse às conformações do meu peito as suas ondulações, ora côncavas, outras convexas. Talvez, intuo, residisse aí a natureza da resistência que faziam-me impulsionar as passadas com a mesma aceleração e distanciamento proporcional ao alongamento dos membros.
Ocorrem-me a procissão do Senhor Morto e as guardiolas empanadas brancas pelas ruas de chão, cruzando na Praça do Centenário com a procissão de Nossa Senhora encontrando com o filho espezinhado na direção do morro da crucificação. Deduzo que as passadas do Cristo ainda não crucificado pudessem assemelhar-se às minhas, ainda que apenas sob observação física. Não carrego às costas a mesma cruz, mas Yeshua devesse ter estatura inferior a 1,70m e, portanto, se deslocasse com mesmo impulso e aceleração que os meus naqueles 243 km em direção ao Santuário. Transmutava, na intensidade e dimensão, os passos do calvário à minha caminhada a Bonfim. Blasfêmia, diria minha mãe refratária a comparações do humano com o divino, mesmo que tivesse sido criado à sua imagem e semelhança e que uma coisa não gerasse outra coisa diferente. Mas aí seria dar à fé uma variação material e física que, em absoluto, se enquadrava naquela procissão de fé que desenvolvia nos cinco dias até os pés de Nosso Senhor do Bonfim. E estava eu ali, novamente, a mirar-lhe as chagas daquela imagem desgastada, amarelada com manchas avermelhadas pelo sangue esvaído dos pregos na cruz, como o Jesus crucificado que encimava o altar da Catedral de Nossa Senhora das Mercês. Uma imagem que os padres celebravam de costas para os fiéis e, depois, decidiram dar-lhes as costas. Era-me irrelevante buscar os motivos da Santa Madre alterar o rito sacerdotal, dando as costas ao Jesus crucificado do altar e dialogando diretamente com os fiéis, deixando em sentido visual secundário a imagem de Cristo. Resistia a pensar que fosse expediente contrário à minha persecução frontal em busca de Nosso Senhor do Bonfim, celebrando-o pela vida e não pela falta dela, mas de frente para o seu sofrimento materializado na imagem daquele corpo crucificado que, agora, o padre, seu representante, dava-lhe as costas para demonstrar o mesmo sentimento, no reflexo do espelho. Passara a adorar o filho de Deus mas com olhar voltado para o humano. Uma diferença, vejo hoje, relevante e que creio influenciada pelos princípios iluministas de jogar luz no humano. Com, deveras, certo atraso. Encontro Nosso Senhor do Bonfim, naquele santuário, após uma escadaria, de frente para a sua dor e não há como apagar a oração de costas para o Cristo no altar-mor da Catedral de Nossa Senhora das Mercês. Uma dor que provocava a minha memória no Cântico da Verônica a desenrolar o Santo Sudário para a multidão de frente para o Coreto, nas escadarias da matriz. Alí, era como se as marcas de sangue naquele pano a desenrolar-se como o cântico triste, fossem marcas na minha própria camisa poliéster Volta-ao-mundo que vestia para o funeral do Cristo. Uma ferida na minha carne de batizado na pia de João Batista no lado direito de quem adentrava a Catedral e crismado pelo Santo Padre Luso. A voz de Palmira me embala nas madrugadas frias e sem lua cheia da rodovia. É algo que só eu, imagino, escuto, revolvendo do fundo da memória a mesma canção que chorava uma dor que não existiria outra semelhante. Uma canção em que a repetição de que não houvesse uma única dor semelhante aumentava em nós a dor que deveríamos sentir. O "atendei e vede, se há, uma única dor semelhante à minha dor" de Nossa Senhora no cântico das Verônicas é um zumbido suave e triste que não me persegue porque dele não mais fujo.


