Sabe-se nesta quarta-feira de cinzas que uma mulher fora presa em Araguaína suspeita de matar cães de rua para se alimentar. Seria mais ético, assim, morrer a canibalizar "pets" ao invés de roubar para comer. Pets, aliás, que tem abrigos com comida, legitimados por leis estaduais, diferente de muitos humanos, como da mulher em Araguaína.
Araguaína tem o 3° maior rebanho bovino do Estado (251 mil cabeças), seis frigoríficos exportadores, além de duas unidades produtoras e de abate de frango. O Tocantins exportou em janeiro de 2023 R$ 163 milhões de carne congelada (na cotação do dólar desta quarta) e fechou 2022, só na carne, com exportações de R$ 2,957 bilhões (no dólar de hoje).
No rateio social do imposto deste faturamento, apenas 2% na circulação interna (ICMS interno geral foi reajustado para 20% por MP em dezembro, mas os 2% dos frigoríficos continuou) e zero na exportação.
Do outro lado da rua, o governo faz cálculo para cumprir os 25% dos servidores, cumprir piso na educação e na saúde e os deputados estaduais seguem com os seus 14º e 15° salários.
A folha de salários do Legislativo do mês de janeiro publicada no portal da Assembléia registra a distorção e, portanto, espelha o fosso entre os representantes da população e os seus representados.
Na última Pnad Contínua/IBGE (3° trimestre/2022), o Estado registrava uma força de trabalho (população economicamente ativa) de 1,277 milhão de pessoas.
Destas, estavam na força de trabalho 795 mil. Mas atenção: apenas 750 mil ocupadas. No estatistiquezeconômico existiria um desemprego de singelos 45 mil trabalhadores.
Uma ficção estatística que os governos fazem uso para medir desemprego, dado que 527 mil (1,277 milhão - 750 mil )estariam efetivamente sem ocupação, sem rendimento para colocar comida na mesa.
Mas retomemos os deputados: na folha de janeiro de 2023 eles receberam dois salários. Um de R$ 29.469,99 referente ao mês de janeiro e outro de mesmo valor (R$ 29.469,99) como auxílio por não serem reeleitos (perderem os mandatos) e para a mudança para a Capital aos eleitos. Todos botaram no bolso franciscanamente sem exceção. Até aqueles que dizem ter exceção da verdade por dizer-se oposição ética.
Significa que os 15 deputados reeleitos receberam o 14° salário antecipado. Colocaram no bolso R$ 29.469,99 como auxílio mudança (pelo término da legislatura, saída) sem deslocar-se um centímetro. Continuam nos gabinetes por que reeleitos.
Destes aí, uma dezena, senão a unanimidade, mora na Capital há mais de 20 anos (alguns desde o início da cidade), onde tem suas moradias próprias. Auxílio mudança ou moradia como!!!!
A soma disso aí em janeiro é que o Legislativo pagou a deputados (reeleitos e aos que efetivamente deixaram a Casa) a bagatela de R$ 1,392 milhões. Só com os 15 reeleitos (que tem casa e que não saíram do lugar) um extra de R$ 442 mil.
A conta vai aumentar em fevereiro. Isto porque o Legislativo terá que pagar os salários do mês e o auxílio de mesmo valor (R$ 29.469,99) aos deputados novatos (R$ 265 mil de ajuda) e novamente, agora como auxílio de chegada, aos 15 deputados reeleitos. Mais R$ 442 mil aos veteranos. Configurando o 15° salário aos deputados reeleitos.
É legal? É. Deputados federais e senadores tem o mesmo. Inclusive os estaduais do Tocantins que se elegeram federal. Recebem lá e aqui. O problema é de outra natureza: ética e moral.
Não à toa no Estado 700 mil pessoas (Cadastro Único) são contabilizadas na pobreza e extrema pobreza. No Brasil, extrema pobreza (pelo governo federal) é aquela faixa de renda de R$ 100,00 per capita mensais. Já a pobreza: R$ 200,00.
No primeiro (133 mil famílias/532 mil pessoas), tem para o mês o equivalente a dois quilos e meio de chambari em Palmas (R$ 38,99/Procon Palmas/13/fev/2023).
E a mulher que suspeita-se matava cães para se alimentar é que foi presa.


