É provável que o leitor já tenha passado por situação semelhante: tem um plano de saúde e é atendido prontamente por um médico que, não raro, vê pela primeira vez. Ele, provavelmente, tem um contrato com o poder público e aumenta sua renda com consultório próprio.
Sua agenda cresce porque você, como tantos outros, o indica. E aí, decorridos alguns meses, ele passa a não atender mais pelo plano, só particular. E te dá um desconto por ter sido sua cobaia quando não ganhava dinheiro.
Pois bem: os anestesiologistas ameaçam paralisar suas atividades nos hospitais públicos, filantrópicos e conveniados de Palmas. Alegam uma dívida acumulada do governo de R$ 16 milhões.
E, claro, ignoram que dívidas podem ser executadas.Haveria, por certo, expediente menos invasivo do que deixar de atender pacientes.
Curiosamente, a ameaça foi publicada dias após o governo divulgar o aumento nas cirurgias eletivas e a vontade política do governo de zerar a fila. Sem anestesista, cirurgias nada feito, é o recado explícito. Sem qualquer desfaçatez.
Caros, essa Cooperativa de Anestesiologistas recebeu este ano (de janeiro a outubro) –dados do portal das transparências desta sexta – a soma de R$ 24,4 milhões de R$ 28,4 milhões empenhados pelo governo.
Uma dívida de R$ 4,4 milhões entre empenho e pagamento. Na verdade, o governo pagou o que foi liquidado (recebido e confirmado) de R$ 24,4 milhões. Não pode pagar se a despesa não foi liquidada, se não recebeu o contratado.
Essa Cooperativa de Anestesiologistas recebeu do governo no ano passado o montante de R$ 34 milhões e 687 mil. Ou seja, não se está falando de médicos e sim de empresários da medicina. Empresa lucrativa como se nota.
É uma renda de que não abrem mão, mas que, ocasionalmente, as transformam em arma contra o próprio usuário do sistema público de saúde. Que, assim, são levados a buscar a rede privada onde estão os anestesiologistas. Não há escapatória.
É assim porque os governos não realizam concursos públicos, terceirizaram a saúde pública. No Tocantins, dos R$ 575 milhões de custeio da saúde no ano passado, a soma de R$ 510 milhões foi paga às empresas médicas particulares.
De R$ 1,9 bilhão de gastos, outros R$ 1,3 bilhão foi pago a servidores. No Estado, 93% (2021) da população é dependente do SUS. Na Capital, dos 1.001 leitos nos hospitais, 506 deles estão na rede privada (relatório da SES/2022). É esse pessoal aí a vítima da cooperativa.
O SUS no Estado (assim como em outras unidades) foi privatizado. Mas ainda assim os empresários mantém a chantagem que não é sobre o poder público.
Mas sobre o usuário do sistema de saúde.


