Sábado, 24 de Out de 2026

Amorosamente de Tião Pinheiro: uma Maria Fumaça com paradas obrigatórias mas sem compromisso de destino certo

25/03/2022 1167 visualizações

Nunca me ocupei de buscar entender o que puxavam as Marias Fumaças da Rede Ferroviária Federal sobre bitolas tão equidistantes entre si quanto longe serpenteavam do cerrado goiano aos montes mineiros de ouro espraiado para encontrar-se com a Mogiana e as plantações de cana-de-açúcar e café do chão paulista.

Cuidava-me, apenas, a observar aqueles operários que entornavam uma garrafa de cachaça antes de debruçarem-se sobre as cargas dos vagões que desconheciam oriundas de Anápolis, Ipameri, Pires do Rio, Araguari, sem preocupar-se com origem ou destino.

Algumas desciam ali na Estação que interceptava, como um bloqueio de partida ou paradoxalmente porta de chegada, a Avenida Goiás na capital goiana. O não ao prolongamento era também um sim de aconchego e abraço

Outras deslizavam saindo da cidade por bairros operários periféricos indiferentes aos olhares de foguistas e maquinistas na janela sob campos verdes, diferentes da etimologia planta azulada de goiania ou da terra de muitas águas cooptada do tupi-guarani.

Amorosamente que o poeta e escritor José Sebastião Pinheiro lança hoje (nas plataformas digitais/virtuais nesta sexta, as 20h) tendo o destino de contra-regra e, contraditoriamente, sob uma avaliação meramente retórica, na contramão das redes sociais,  segue o fluxo poético e a aceleração inercial de Manuel Bandeira, como se dele fosse extensão no modo e forma. Quase a anáfora onomatopéica do pernambucano em Trem de Ferro:

 “Café com pão/café com pão/café com pão/virgem maria, o que foi isto maquinista”, poetava Bandeira que seguia “Passa ponte/Passa poste/Passa pasto/Passa boi/Passa boiada/Passa galho/De inagaseira/Debruçada/No riacho/Que vontade de cantar”. 

Tião Pinheiro assumiu a janela da sua própria Maria Fumaça e expressão literária com Janelas (no ínício da década de 80). Dela, com o empuxo do sangue (portador do gene de sua história) e impulso do dia-a-dia, controlando o fogo e a máquina do seu ponto de observação horizontal e vertical, não desceu na estação seguinte (Vôo Esperança/84). Mirou as malas, mirou-se na vidraça da janela, pegou-as de volta e virou-se para o horizonte que ainda hoje persegue pela janela do trem.

Não por tudo que isto representasse mas justamente por sua aceleração inercial (e inicial) que o impelia a impedir que o aceitasse da forma como se apresentava, que contrastava inapelavelmente vontade e representação dos trilhos que tinha como direção. O sim no não e o não no sim

Seguiram-se Calundu (poemas/89), De Sonhos e de Construção (poemas/2008), Chave (CD/99), Lugares (CD/2008) e Alma Leve (poemas/2015) quando já era conclusa a transposição da ponte férrea/humana entre poeta e compositor, que se acentua nesta sexta com as vozes dos parceiros Leo Pinheiro, Genésio Tocantins, Maria Eugênia, Dorivã, Nacha, Jorge Menares e Écio Duarte (do projeto Tempo ao Tempo/De amor e de afeto) e as atrizes Luciana Assunção e Ana Kamila Castaño.

De outro modo: na inexistência de poesia e vida nos trilhos da Ferrovia Norte-Sul que corta o Tocantins em direção ao Sul e Norte, debruçar-se sobre a janela dos dormentes que Amorosamente de Tião Pinheiro ilumina (nas plataformas  hoje e sempre) é mais que observar apenas uma paisagem lúdica.

É intervir cirurgicamente no motor dessa Maria Fumaça que modula, com seu ritmo ora frenético e sibilante (como a sirene do trem) noutras silente e serenosamente devagar como uma preguiça ao meio dia de sol de 40 graus do cerrado, quase saindo da página, nossa própria existência.

E que os colonizadores tratavam-no como causa e consequência de uma índole indolente que a literatura (ao contrário da tradição) cuidaram de registrar sem apontar seus equívocos substanciais de interpretação de léxico e semântica.

E tome Tião e Tome Bandeira e tome mais Trem de Ferro. E siga a vida.

"Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente..

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