O frenesi de grupos políticos no pós-morte de Siqueira Campos tem contrastado com a reação da população à perda do ex-governador. Siqueira, para muitos, não seria apenas o político, mas o ombro amigo, o pai, o avô. Enfim, o “criador” de tudo que está aí. A causa da causa. Deus personificado, portanto.
O problema é que mapa e território da equação situam-se na esfera pública, com recursos públicos, que não pudessem ser decodificados e processados por afetos pessoais. E sim balizados pelo processo histórico.
Uma avaliação que colocaria aquele que tem noção do papel verdadeiro (e relevante) do ex-governador na história, um pária por não escrutiná-lo como uma pessoa de sua família, como os siqueirista o disseminam.
Quando Siqueira, indiscutivelmente, fazia uso desse afeto como mero pragmatismo político de adesão. Tinha outra reação contra aqueles que não concordavam com seus métodos, política e forma de governar.O afeto, aí, não seria condição nem causa ou consequência aderente.
Por outro lado, enquanto tratam-na, a morte de Siqueira, os políticos ainda siqueiristas, como fato histórico que levaria multidões de desassistidos às ruas, a população do Estado (30% na extrema pobreza e pobreza após 35 anos de criação e algo próximo a R$ 200 bilhões de orçamentos onde por apenas 14 anos foram administrados por Siqueira e 21 por seus adversários políticos) parece passar por uma catarse libertadora. Ficou praticamente parada, muito claro no contingente que compareceu ao velório e sepultamento.
Só isto já seria suficiente para a sociedade política (siqueirista) devolvesse Siqueira para o seu lugar na história que não é irrelevante nem insignificante. Se não pelos fatos, mas pelo entendimento que a população sugere com a não adesão ao frenesi siqueirista. E que na verdade aponta a falta de régua dos políticos. Ou, por outro lado, a sua própria regra.
E não se tem limites: ontem (na data da missa de sétimo dia) a Assembléia Legislativa prestou contas aos siqueiristas. Fez publicar como principal destaque na sua página na internet os projetos da Casa aprovados em uma semana, que homenageiam o ex-governador. Um balanço das ações que o próprio Legislativo já publicara quando de suas aprovações.
Um balanço, uma prestação de contas não à população (que já fizera no ato em si), mas aqueles que. em celebração religiosa. oravam pela purificação da alma do ex-governador, sinalizando o fim do luto de sete dias. Uma mistura de sagrado e profano, material e imaterial.
A Assembléia aprovou a mudança (sem ainda a aprovação do governo) do nome do Palácio Araguaia (para Siqueira Campos), ainda que o Palácio seja sede do Executivo, não subordinado ao Legislativo.
Criou a comenda Grão-Mestre Siqueira Campos, requerem a construção de um museu Siqueira Campos e autorizaram a construção de um monumento a Siqueira (estátua) na Praça dos Girassóis.
Tudo considerado ações que dispendem recursos públicos quando deputados não tem competência constitucional para criar despesas além do seu próprio orçamento.
Já há, como se sabe, projeto para mudar o nome da avenida Teotônio para Siqueira Campos, pedido para nominar a ponte FHC com o mesmo nome e Siqueira já implantou estátuas não só sua, mas de toda sua família na mesma Praça dos Girassóis no tal Monumento à Família e cujos traços são indiscutivelmente de Siqueira e sua família.
No outro território, nos veículos de comunicação, dois ex-secretários de Siqueira (que migraram para a região já com Siqueira governador) publicaram um artigo a seis mãos (junto com uma terceira co-autora) ressuscitando a tese ilógica, irracional e falaciosa da criação do Estado. A ação denuncia, quase uma indução, esforço argumentativo para reforço da tese sobre criador e criatura.
Escrevem (um deles professor e ex-secretário de Educação) que Siqueira “incorporou” um messianismo para “produção” do território tocantinense. Denomina o Estado como a “Mesopotâmia tocantinense de Siqueira”.
Se o Tocantins seria uma "produção" de Siqueira, faltaria explicar o que seriam os nortenses nessa linha de produção. Nem Siqueira nos seus pensamentos poderia imaginar-se explicitando a estratégia industrial de seu projeto, expondo tão nua e cruelmente sua linha de produção do Estado onde, por certo, estariam translúcidos matéria prima, capital e força de trabalho na sua mesopotamia própria e singular.
E que Siqueira seria o responsável pelo desenvolvimento do Estado desde sua criação quando Siqueira foi governador por apenas 14 dos 35 anos de Estado.Uma ligeireza retórica que, própria do siqueirismo, não encontra correspondência na lógica nem na história.
Só vai no empurrão e na manivela de que hoje o siqueirismo carece com a morte de seu principal líder que, para alguns, como se nota, seria um Messias a libertar os nortenses da miséria.
Quando se estudava história universal no então Norte de Goiás, aprendia-se que a Mesopotâmia (hoje na região do Iraque) situava-se entre dois grandes rios (Tigre e Eufrates).
Minha mãe me fez memorizar (decorar, mesmo, páginas e páginas de história e geografia que tomava ponto por ponto sem poder saltar página), ainda no primário, as capitais de todos os países do planeta, assim como todos os grandes rios e onde se situavam. Uma das minhas preciosas heranças.
Se o Estado fosse comparado à Mesopotâmia (como sugerem os mágicos), estaria cindido entre os rios Araguaia e Tocantins. Contrariando a própria luta de criação do Estado que lutava pela libertação da margem direita do rio Tocantins, do rio à divisa com Bahia/Piauí/Maranhão, isolada do país pelo rio só ultrapassado por balsas. E que a levou a ser denominada de corredor da miséria.
Mas já seria demais exigir de tais o que seria margem direita ou esquerda do rio, o que dizer de Mesopotâmia!! Ou seja, a questão não é só a superfícialidade e desconhecimento, ainda que propositadamente de geografia e história!! Ademais, se fosse proposital o fake-news, seria mais grave.
Aliás, Mesopotâmia dentre cujos legados que deixou à civilização (e os países civilizados cuidaram de extirpar da sociedade) está o Código de Hamurabi: aquele que pregava o olho por olho, dente por dente.
Como digo: a falta de limites do siqueirismo, se ajudou Siqueira em vida, o prejudica, sem o controle de Siqueira, na morte.


