Sexta-feira, 23 de Out de 2026

Agricultura, vocação e miséria. Meu artigo no Jornal do Tocantins desta quarta

luizarmandocosta 24/06/2020 175 visualizações

O economista francês Thomas Piketty (O Capital no século XXI/Editora Intrínseca/tradução Monica Baugarten de Bolle) quando trata da dinâmica da relação capital/renda avalia que as diferenças entre o mundo do século XIX e o mundo do século XXI são menos evidentes do que parecem. Aqui, como lá, a riqueza é ligada à propriedade, terras e dívida pública. Sem influenciar, de forma mais consistente, na força de trabalho.

Nestes dias em que se vangloria da previsão otimista da safra 2019/2020 (5 milhões e 361 mil toneladas de grãos/a maior safra entre os Estado do Norte) e R$ 3 bilhões e 382 milhões de exportações do agronegócio (janeiro a maio de 2020) reforça-se o chavão de que a agropecuária seria a vocação do Estado. É um chamado que remonta à criação do Tocantins sem, no entanto, viabilizar-se como vocação. Ainda que a propaganda seja até espontânea tanto quanto fundada em elementos controversos. Mas que atrai investidores e investimentos bancários. Muitos subsidiados pela força de trabalho.

Os números, no entanto, dispensam explicações. A agropecuária é responsável (2017/último dado disponível) por apenas 13,5% do PIB (considerando o Valor Agregado da Economia, PIB sem os impostos/R$ 30,8 bilhões). Se consideramos somente a agricultura, cai mais um pouco a participação:6,4%. A indústria responde por 14% e o setor de serviços por 71%. Dados do IBGE/Secretaria da Fazenda.

Entende-se a narrativa. Dessa produção de grãos prevista para este ano (5,361 milhões de toneladas de grãos) pode-se inferir outra variante. Em dez anos (2010 a 2020), enquanto a área plantada crescia 140% (639 mil hectares/2010 – 1.528 milhão de ha/2020), a produção aumentava 184%. De outro modo, em dez anos a área plantada aumentou 2,3 vezes e a produção apenas 3 vezes. Significa que em larga medida a produção aumentou mais em função de aumento de áreas utilizadas do que pela produtividade. Perceptível a olho nu nas grandes plantações de soja que expulsam pastos, gado, arroz e feijão.

Retornando aqueles R$ 3 bilhões e 382 milhões das exportações de janeiro a maio deste ano e às 5 milhões de toneladas de grãos, a participação do setor considerado vocacional do Estado no desenvolvimento regional foi insignificante. Tomando janeiro a abril de 2020, a agricultura recolheu de ICMS (no quadrimestre) apenas R$ 4,3 milhões de imposto.

Leia mais: https://www.jornaldotocantins.com.br/editorias/opiniao/tend%C3%AAncias-e-ideias-1.1694943/agricultura-voca%C3%A7%C3%A3o-e-mis%C3%A9ria-1.2073998

Compartilhar

Deixe seu comentário

Mais em Ponto Cartesiano