Avalio ter guardado mais proximidade que distância de São José Operário. Vi a "Última tentação de Cristo" (Martin Scoserse/1.988) e "A primeira tentação de Cristo"(Porta dos Fundos/2019). Na primeira ("Última") ocorreu-me a reflexão quando me encontrava no ardor dos 27 anos. Já a segunda ("A primeira") bati os olhos beirando os 60.
Obras diferentes com finalidades distintas. Na primeira ("Última"), um princípio conservador no carpinteiro-pai adotivo. Na segunda ("A primeira"), um grupo com princípios mais heterodoxos fazendo que a narrativa principial dos cristãos se transforme em humor com um simples paralelismo com as realidades atuais.
Nas duas obras é encontradiça a conexão/relação conflituosa: capitalismo X religião. E que, aliás, teria provocado um dos cismas na igreja com o conhecido ódio de Lutero aos judeus por sua natureza financista, sucedâneo à apologia de riqueza nos céus em detrimento de pão e comida na terra. E a acomodação, sem resistência religiosa, do capitalismo à igreja, com a criação do Pai Noel dos shoppings centers.
Os atributos de São José Operário (de Martin Scorserse) são-me mais próximos ainda que guarde lá dúvidas humanas sobre divindades onipresentes, onipotentes e oniscientes. Afinal, por exemplo, se Adão foi condenado à morte por comer o fruto proibido, deve ter tido sua execução postergada porque foi-lhe dada a oportunidade de fazer (como na própria Bíblia) pelo menos três filhos após cometerem o pecado original: Caim, Abel e Sete.
São José me acompanha desde a infância ou antes dela. No Natal, meu pai, um mix autônomo de pedreiro, carpinteiro, tirador de goteira, projetista, mestre de obras, entendo hoje, devia se virar nos trinta para encher nossos sapatos e meias na janela que ele mandava colocar ali com antecedência. Alimentava-nos, os sete filhos, no sonho. Apenas com a certeza interior de que conseguiria, de alguma forma, preenchê-los antes da meia noite de 24. Na pior das hipóteses, saía com uma escada nas costas atrás de goteiras para tirar e ganhar alguns trocados.
E enfrentava dois outros dificultadores previsíveis: 1) trabalho para fazer em dezembro que trazia, antes dos desmatamentos e queimadas das commodities, um Natal chuvoso e 2) receber antes do meio dia de 24 de dezembro o pagamento pelo serviço. E havia um terceiro: se recebesse, enfrentava o pragmatismo de minha mãe que, antes dos brinquedos que sonhávamos ganhar, colocava na mesa o prioritário: a falta de roupas. Abaixo as roupas!!! Viva os brinquedos!!!, emulávamos nossas certezas.
Acreditávamos que os presentes eram dados por Papai Noel. E não pelo esforço do meu pai operário. Passava despercebido por que motivos os filhos de servidores públicos (como o Dergo e da Ceorta) recebiam com antecedência a visita do bom velhinho. Lá em casa era na undécima hora e nem sempre era o que pedíamos ao bom velhinho. Seria também mau, o bom velhinho?
Há muitos operários como São José (e o meu pai operário) a vivificar ainda hoje, com as mesmas contingências, o sonho da manjedoura e dos presentes dos reis magos. Não são do nível do ouro ou da mirra pelo nascimento do rei dos judeus naquele estábulo na Judéia da narrativa cristã. São esforços para manter uma fé nem sempre entendida nestas horas de consumismo mas buscada quando, após, retomamos o imenso vazio que só a fé, deixada na janela, intentaria preencher.
Salve os "São José" operários. Salve meu velho Augusto que nos seus 87 anos é e sempre será o meu bom velhinho, como o são tantos pais, tantos "São Josés" que, apesar das dificuldades cotidianas, mantém acesa essa chama. Com shoppings centers ou não.


